Nova Plebe

A Radicalização Contínua do MBL

Curtis Yarvin em um evento do MBL.
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O partido Missão, espécie de braço eleitoral do MBL (Movimento Brasil Livre) esteve envolvido em polêmicas desde o começo.

Polêmicas podem não ser nenhum tipo de novidade na política, mas a questão, no entanto, é que as que estão ao redor do Missão apontam um padrão maior e de caráter preocupante.

Tomemos, por exemplo, a escolha de convidar para sua convenção ninguém mais e ninguém menos que Curtis Yarvin, talvez o mais importante ideólogo do regime de Trump nos Estados Unidos.

Yarvin é um dos principais pensadores do movimento do Dark Enlightment (iluminismo escurou, ou sombrio, comumente abreviado como NRx na internet, do qual o MBL é admirador ao ponto de ter um podcast nomeado em referência ao movimento, o Dark MBL). Ele se identifica ideologicamente como um monarquista, mais especificamente monarquista absolutista, sem espaço para constituição ou qualquer tipo de limite ao poder do rei, fatores que ele identifica como conciliação e causa de ineficiência na sociedade.

Já o modelo econômico proposto por Yarvin não somente é abertamente a favor do domínio de grandes corporações sobre a sociedade ― especificamente porque elas são menos democráticas que uma economia baseada em pequenos negócios ou mesmo uma economia cooperativa ―, mas também a favor de quê estas megacorporações usem o Estado para gerir a economia ao seu favor e que ele seja, para este fim, gerido ele mesmo na lógica de uma corporação.

Para esta transição visando um Estado despótico, abertamente parcial em favor de uma classe privilegiada, Yarvin propõe um plano que ele mesmo denomina RAGE, sigla que significa “Retire All Government Employees” (Aposentar Todos os Funcionários do Governo), com a finalidade de aparelhar todo o funcionarismo público de forma que priorize funcionários da direita, dispostos a tirar do papel a agenda dele.

O plano RAGE com certeza vai causar uma sensação estranha de “há algo estranho aqui” em nosses leitores mais perspicazes, isto porque o RAGE foi tirado do papel (em uma forma menos extrema, no entanto) com o nome de DOGE (Department of Government Efficiency, Departamento de Eficiência Governamental) logo no começo do governo Trump por Elon Musk, conhecido de Yarvin e que já pagou para receber consultoria do tal; mas não só o Sr. Musk, Yarvin também é amigo do vice-presidente americano J.D Vance, que tira grande inspiração de Yarvin e o conhece pessoalmente, assim como de Peter Thiel, magnata do software responsável pela venda de diversos dados para governo americano, inclusive dados que ajudaram a ICE a capturar imigrantes e deportá-los do país, além de vender também armas para este mesmo governo.

A influência de Yarvin no Missão e no MBL, no entanto, não se dá somente na simpatia que o partido apresentou ao ideólogo presencialmente e nem à importância que deram a Yarvin ao serem o primeiro grupo a trazê-lo ao Brasil. Diversas propostas do Missão são de caráter “yarviniano”.

As tentativas de centralização do poder nas mãos do próprio governo hipotético, já que o Missão propõe, entre outras coisas, reintegrar o estado de Tocantins ao de Goiás), assim como a hostilidade histórica do MBL contra funcionários públicos ― que já chegou ao extremo de incentivar que alunos gravassem e incomodassem seus professores em um estilo de vídeo que emulava a propaganda do grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh, vulgo ISIL ou ISIS) ―, facilmente constituem uma forma mais desajeitada de realizar o RAGE imaginado por Curtis ou ao menos recebeu inspiração do próprio, mesmo que assumindo uma forma muito mais bruta e desordeira.

A insistência histórica do MBL, e a insistência atual do Missão, é querer enxergar o Estado brasileiro como uma companhia privada e submeter-lo às mesmas expectativas de uma, assim como explicitamente de usá-lo para privilegiar grandes setores privados. Temos, por exemplo, o Sr. Renan Santos constantemente defendendo que o Estado financie grandes empresas privadas e “o agro” (nesses termos), assim como que a EMBRAPA seja colocada em posição de subserviência ao que ele mesmo chama de “o agro”; iniciativas que vão além da tradicional pilhagem econômica neoliberal e se revelam um plano mais sinistro quando o valor que dão a Yarvin é considerado.

O RAGE e as ideias de Yarvin, no entanto, estão longe de serem os únicos ou o pior resquício da extrema-direita na ideologia do Missão. O Missão, e principalmente Renan Santos, são defensores do conceito de Direito Penal do Inimigo.

Direito Penal do Inimigo é um conceito jurídico do qual afirma que o Estado não deve conceder os mesmos direitos e fazer passar pelos mesmos processos legais pessoas e cidadãos que ele próprio julga como “inimigas do Estado”. A princípio os “inimigos do Estado” deveriam ser organizações criminosas e terroristas, mas qualquer pessoa com o mínimo de malícia sabe não haver dificuldade nenhuma em fazer com que ele passe a considerar todo e qualquer opositor político um “inimigo do Estado”, da mesma forma como minorias sociais.

Se tal ideia e suas implicações remeterem às práticas do fascismo em sua manifestação alemã (isto é, o nazismo), é porque as semelhanças não são coincidências. Günther Jakobs, o criador do conceito, usou como maior base e inspiração teórica o jurista alemão Carl Schmitt, membro do partido nazista e influente dentro do mesmo.

Se tornou modinha reduzir Schmitt ao “cara que falava que é importante buscar inimigos” depois que Alexandre Linck fez o grande desfavor de supersimplificar sua ideologia ― com a consequência de esvaziar o debate político e normalizar indiretamente o nazismo ―, mas a teoria política schmittiana se trata de um conceito mais complexo que precisa ser entendido mais a fundo.

Schmitt afirmava sim que o propósito da política é uma diferenciação entre amigo e inimigo, com a ajuda ao amigo e o combate ao inimigo; mas ele também teorizava que a democracia liberal é um atraso para este processo e que pode ser destruída usando este propósito que é política em si, inclusive da democrática, contra a democracia liberal. Isto é feito com a constante identificação de um inimigo ou ameaça para a república liberal e tomada de mais e mais poder para o Estado em nome do combate a este inimigo, ao ponto de que de concessão em concessão, para salvar a república, a mesma dá lugar a uma autocracia.

É possível perceber uma intersecção entre as ideias de Yarvin e Schmitt: ambos valorizam um regime de concentração de poder e o consideram mais eficiente (mesmo com a história incessantemente dando evidências que este não é o caso), assim como pregam a subversão da república liberal e finalmente a tomada de poder da mesma em favor de um outro regime.

Esta aspiração à ditadura maquiada de defesa da eficiência não é nem um pouco estranha ao discurso do Missão ou ao discurso histórico do MBL.

Kim Kataguiri já propôs em várias ocasiões que a oposição política, no caso a socialista, se tornasse ilegal (mas também concordou com Monark quando o mesmo defendeu a fundação de um partido nazista no Brasil).

Renan Santos defende que a polícia entre na casa das pessoas sem mandatos, além de outros exemplos já citados. Há também a icônica frase “prendeu matou” popularizada por membros do MBL e Missão, que podemos imaginar neste contexto se aplicaria a qualquer um que dissesse um “a” de seu governo, inclusive devido à administração inapta e desqualificada da qual o Missão seria capaz.

Mas além da defesa de um conceito jurídico baseado na teoria de um nazista, do acordo de Kim Kataguiri com a criação de um partido nazista, do episódio onde o mesmo mostrou um “88” em sua campanha eleitoral mesmo não tendo “88” em seu número, de terem chamado ao Brasil o ideólogo de um regime de extrema-direita ativamente perseguindo minorias, de Renan Santos abertamente defender uma escalada do autoritarismo do próprio potencial governo e de terem se inspirado em um grupo terrorista e fundamentalista religioso para incentivar alunos a monitorarem seus professores, o Missão e o MBL ainda tem mais alguns esqueletos interessante no armário que tiraremos em público aqui.

Segundo uma matéria publicada na Intercept Brasil, um ex-moderador do servidor oficial do MBL denunciou que a tolerância de nazistas por lá era preocupante. Preocupante ao nível de que o mesmo está temendo pela própria vida após ter deixado o grupo e feito a denúncia.

O deputado Glauber Braga expôs a ligação do MBL, por meio de seu membro Benjamin Pontes, com movimentos neonazistas, inclusive com Vicky Vanilla, nazista já exposto por Thiago Santinelli.

Antes de uma conclusão é necessário tocar num assunto: defensores do MBL e Missão afirmam que um caráter fascista ou uma simpatia neonazista por parte de ambos não seria possível, ou mesmo seria ridícula porque haveria membros de minorias sociais na junta.

Com esta lógica, os bajuladores de deputado teen nos perguntam se não seria uma contradição para Fernando Holiday, que é negro, ou para Kim Kataguiri, sendo de descendência japonesa, apoiarem nazistas. Não seria contraditório de um ponto de vista lógico e até perigoso para pessoas como os dois colaborar com uma ideologia que é abertamente anti-eles?

A nossa resposta é simples, clara e direta: é contraditório sim, e muito, e é uma proposta ridícula sim e eles cumprem com esta mesma proposta tão ridícula porque eles são idiotas.


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