Não há nada que pseudo-socialistas odeiam mais que um intelectual orgânico do proletariado.
Quando um pensador nascido do seio do povo começa a tirar a discussão a respeito da revolução das garras da abstração e dos “debates” sem propósito nem fim, isto começa a deixar muito evidente o quão estéril é o pensamento das camadas improdutivas da esquerda “radical”. Isto cria um cenário onde, para parafrasear Debord, a teoria revolucionária se torna inimiga da prática revolucionária.
Se tornou um pouco mais relevante dizer isso recentemente quando começou a modinha de atacar Nego Bispo, um pensador quilombola, contracolonial e socialista orgânico brasileiro, com uma série de críticas e acusações medíocres.
Não nos cabe a perda de tempo de responder cada besteira dita contra Nego Bispo, pouco aprendizado poderia vir de responder a tal sequência de falácias e claras tentativas de distorcer as palavras dele. Podemos aprender algo, no entanto, enquanto estudantes da ciência social mutualista, se pensarmos este evento em comparação com um outro para identificar a lei ou padrão histórico entre eles.
A situação enfrentada em nossos dias por Bispo é de muitas formas análoga à situação enfrentada por Proudhon em sua época, e por consequência estas semelhanças também revelam muito a respeito das fragilidades e do método dos socialistas reacionários de ambas as épocas.
Proudhon, de forma similar a Bispo porém admitidamente sem a complexidade e a gravidade do contexto colonial e de discriminação racial, também foi difamado pelos socialistas do centro de poder do país onde residia por ser um intelectual vindo de um contexto tanto interiorano quanto periférico.
Tanto Bispo quanto Proudhon eram periféricos não somente em relação aos já mencionados centros de poder de seus respectivos países (o Brasil da região sudeste e a França parisiense), mas eram periféricos também em relação à ideologia hegemônica que vinha e que ainda vem dessas regiões. A manifestação mais relevante da ideologia imposta por estas regiões metropolitanas, no caso deste ensaio, são as limitações e os preconceitos pequeno-burgueses que se refletem no socialismo hegemônico nesses territórios.
Assim como Proudhon causou escândalo e despertou o rancor dos socialistas metropolitanos ao apontar de forma clara e sem nenhum espaço para discussão semântica que a classe operária não precisa se adequar a nenhuma utopia ou teoria de socialismo ou comunismo supostamente perfeito e “verdadeiramente libertador”, já que esta classe é capaz da autogestão e portanto o programa socialista pode ser definido diretamente das práticas dela, Bispo causou um escândalo parecido mas despertou um rancor ainda maior ao sugerir que os povos contra-colonizadores (nas palavras dele) não tem a obrigação de se definir nos termos da filosofia europeia ou de se adequar aos aportes dela.
Mas por que tanto Proudhon quanto Bispo incomodaram tanto o status quo e seus servos no meio intelectual com estas colocações? É muito simples, na verdade.
Primeiro, Proudhon arrancou deles sua justificativa enquanto aristocracia do trabalho, uma vez que, quando a autogestão operária é possível, não existem mais razões para se manter os cargos privilegiados de vigilância e punição do trabalho nos quais a esquerda tão oposta à autogestão costuma trabalhar.
Depois disso, Bispo arrancou deles, de forma tão simbólica quanto literal, o monopólio da produção intelectual oposta à colonialidade. Enquanto muitos na academia tem um contato meramente teórico com o assunto, que os permite “criticar” a colonialidade dentro de um viés positivista, reducionista de classe, eurocêntrico e superficial, gerando uma mentalidade e sentenças do tipo “podemos até criticar a imposição vinda da europa no campo filosófico, mas deixar o racionalismo para trás é passar dos limites”, Nego Bispo foi capaz de ir até o fim com essa mesma oposição e conceituar uma contracolonialidade, uma rejeição ativa e pluralista do colonialismo que abriga também as visões de mundo que fogem do racionalismo e da objetividade.
Aqui está a razão por trás da relevância e do triunfo de Nego Bispo: ele não somente falava contra o colonialismo, ele lutava diretamente contra o colonialismo e viveu uma vida contrária a ele. Não por coincidência, a razão do sucesso de Proudhon é semelhante, como disse Marx: Proudhon escreve apenas nos interesses dos proletários, ele mesmo é proletário. Ambas as posições os concederam visões de mundo sólidas, que os permitiram superar as limitações impostas a eles.
Mas estes pensamentos não se encontram só por meio de paralelos nas formas como foram rejeitados pelo socialismo pequeno-burguês, seja parisiense ou social-democrata do Brasil ou da Alemanha, Bispo e Proudhon estavam de acordo em pelo menos mais um tópico:
No meio da modinha de atacar Nego Bispo, se tornou comum citar um trecho de um livro do mesmo que diz o seguinte:
Existem modos de vida fora da colonização, mas política, não. Toda política é um instrumento colonialista, porque a política diz respeito à gestão da vida alheia. Política não é autogestão. A política é produzida por um campo que se entende iluminado e que, por isso, tem que ser protagonista da vida alheia.
O único motivo pelo qual não podemos dizer que Bispo resumiu de forma perfeita a posição anarquista sobre a política pelo motivo do mesmo não se considerar como tal, e vamos respeitar a identidade ideológica do mesmo.
Não é à toa que os ditos “socialistas” que tanto atacam este trecho, inclusive os que nos envergonham se dizendo socialistas libertários e, portanto, manchando o nome e reputação do socialismo libertário, rejeitam tanto Proudhon. Proudhon está do lado de Bispo!
Há muito tempo a igreja disse, falando como uma mãe terna: Tudo para o povo, mas tudo pelos padres.
A monarquia veio depois da igreja: Tudo para o povo, mas tudo pelo príncipe.
Os doutrinários: Tudo para o povo, mas tudo pela burguesia.
Os radicais não mudaram os princípios por terem mudado a fórmula: Tudo para o povo, mas tudo pelo estado.
É sempre o mesmo governismo.
— A Natureza e o Destino do Governo, P.J Proudhon.
A política é uma característica societal oposta e antagônica à autogestão, relação esta que é de difícil percepção para os “socialistas” metropolitanos neste caso.
Da mesma forma, a teoria do anarquismo apontava a autogestão como diferente da política e antagônica à política.
Como uma variedade do regime liberal, mencionei a anarquia — o governo de cada um por si mesmo, autogoverno . Como a frase governo anárquico envolve um tipo de contradição, a coisa parece impossível e a ideia absurda. No entanto, não há nada para criticar aqui, exceto a linguagem; politicamente, a ideia de anarquia é tão racional e concreta quanto qualquer outra. O que isso significa é que as funções políticas foram reduzidas a funções industriais, e que a ordem social surge de nada além de transações e trocas. Cada um pode então dizer que é o governante absoluto de si mesmo, o oposto polar do absolutismo monárquico.
— Do Principio Federativo, P.J Proudhon.
Numa época em que supostos “socialistas revolucionários” (e mesmo “anarquistas”) se curvam ante o discurso liberal e falam em termos de “politização” e “despolitização”, nós mutualistas precisamos confrontar de peito aberto esse regresso no movimento revolucionário e afirmar de peito aberto: anarquismo é antipolítica! O anarquismo e a autogestão econômica e social são incompatíveis com qualquer forma de política!
Todo o objetivo do anarquismo pode ser reduzido a acabar com a gestão econômica e societal baseada nas mesquinhas e divisivas disputas de ego da política e dissolvê-las na autogestão popular e federalizada, onde a produção não é mais refém de “debates” inúteis entre pseudo-representantes e disputas pelo poder entre partidos, mas é liberta e passa a ser ferramenta para a conquista do bem-estar e enriquecimento de toda a sociedade.
Estas são questões onde podemos afirmar que há um ponto de encontro forte entre Bispo e Proudhon, e quando recebemos o confronto covarde de tantos “socialistas” que afirmam tanto que não têm ídolos e que odeiam o personalismo, mas atacam de forma violenta e animalesca tudo que não é literalmente Marx ou seja lá o teórico da vez, podemos afirmar que, com ressalvas aos erros e limitações de ambos, estamos com Bispo e com Proudhon.
Estamos especialmente junto aos dois contra o “socialismo” reacionário de toda e qualquer época.


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