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Incompreensões Sobre o Anarquismo

Esse presente texto tem como intuito abordar as incompreensões sobre o anarquismo que circulam na internet, explicando coesamente os fundamentos da tradição anarquista e a sua evolução ao longo do tempo.
O primeiro embate que percebemos é o da relação conflituosa entre o anarquismo e o socialismo marxista. Alguns leigos sempre tentam explicar a diferença entre os dois simplistamente, da seguinte maneira: “ambos querem chegar ao comunismo, mas um entende a importância da transição através do Estado e o outro não”. Essa afirmação denota um esvaziamento dos conceitos de ambas as tradições político- filosóficas, tendo em vista que o marxismo é a expressão teórica de um movimento real do proletariado, algo socialmente e historicamente determinado, utilizando um método de análise que não pode conceber abstrações forçadas, apenas analisar a realidade e o movimento proletário em si, e como ele concretiza a sua autoemancipação, normalmente através da sua autoatividade, com a sua busca espontânea por isso na sua vida cotidiana, negando automaticamente o Estado e instaurando uma sociedade autogerida.
Algo que foi interpretado de diversas formas por várias tradições marxistas, como: leninistas (necessidade de um Estado transitório, com um partido único), conselhistas (derrubada por conselhos operários, negando o Estado) e outras vertentes marxistas libertárias, por exemplo.
Já o anarquismo, tema do nosso texto, é um conjunto de princípios que negam o Estado, as hierarquias, as autoridades coercitivas e visa libertar o sujeito das amarras morais impostas pelas instituições religiosas, negando completamente a lógica da democracia burguesa, bem como toda forma de partido no conceito moderno. Vemos então que o anarquismo se baseia em práticas de libertação, e que ele diverge do marxismo, principalmente da vertente conselhista, apenas no sentido teórico, convergindo no sentido prático.
Sendo assim, os anarquistas defendem as greves gerais, as ocupações e sociedades como as aldeias indígenas, por exemplo, mesmo não sendo anarquistas no sentido teórico, com certeza possuem vários atributos do que seria o anarquismo no sentido prático. Dentre essas práticas de libertação, as sociedades autogeridas são a expressão mais pura do anarquismo, por negarem concretamente as hierarquias sociais e o domínio dos poucos sobre muitos.
Partindo disso, chegamos à conclusão de que não existem “anarquismos”. O que existe é apenas um anarquismo: esse conjunto de princípios e as diversas maneiras de se organizar, aplicando esses princípios para assim construir outro modo de sociedade, que pode optar por formas diferentes de economia no seu interior.
Então, existem diversas formas de organizar uma sociedade com princípios anarquistas. Podemos organizar uma sociedade comunista, coletivista ou mesmo mutualista.


De modo geral:
• A economia comunista defende uma sociedade pautada na distribuição de recursos de acordo com a necessidade;
• A coletivista defende a distribuição de acordo com as horas de trabalho, com o uso de recibos de trabalho (se assimilando com o marxismo, na fase primária do comunismo);
• A mutualista defende o crédito mútuo e uma moeda alternativa.


Ainda, existem os chamados anarquistas sem adjetivos, os que consideram que a forma como a economia é organizada na sociedade seria decidida coletivamente somente no curso do processo, e não antes do mesmo.
Também existe uma pluralidade muito grande no anarquismo, desenvolvida com o passar do tempo. Os anarquistas no início do século XIX defendiam uma alternativa para a exploração do trabalhador europeu nas zonas urbanas, ou seja, nas zonas mais industrializadas. Mesmo existindo posteriormente experiências que visavam coletivizar as fábricas, também existiram experiências em zonas rurais, e elas não precisaram de uma revolução sangrenta para atingir o objetivo de aplicar os princípios anarquistas, como na Comuna de Shinmin, na região da Manchúria (divisa entre China, Coreia e União Soviética), e na Makhnovtina, na Ucrânia, mesmo que, posteriormente, tiveram que utilizar a violência como resistência contra a reação que almejava destruir a autonomia desses indivíduos.
Todas essas experiências, tanto nas áreas urbanas como rurais, visavam uma autonomia permanente, mas acabaram se tornando autonomias temporárias. Algumas experiências, como os neo-zapatistas, conseguiram triunfar por muitos anos. Mesmo não sendo estritamente anarquistas na questão teórica, organizaram uma sociedade autogerida que dura, hoje, mais de 20 anos.
Sejam zonas autônomas temporárias ou permanentes, o anarquismo continua sobrevivendo, tanto nas práticas de libertação do povo em sua forma direta quanto indireta. É, sim, uma utopia, se você for interpretar literalmente o significado da palavra: uma proposta radical de mudança na sociedade, algo realizável em todas as formas possíveis.


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