Desde o início do cristianismo, tivemos pessoas que estavam dispostas a lavar o chão com seu próprio sangue para pregar a mensagem do Cristo. Às vezes, alguns me perguntam: “Ora, esses mártires não existem mais?” Eu respondo que ainda existem; são homens e mulheres que vão desde os 21 mártires da igreja copta, degolados pelo Estado Islâmico, até os palestinos que preferem morrer em igrejas bombardeadas por Israel do que abandonar seu país. Mas hoje quero explicar sobre um tipo específico de mártires: os mártires da Amazônia.
Nada é mais heroico do que morrer por Cristo, e isso envolve morrer em nome de sua criação. Do que adianta o sol, se ele nos mata? Do que adiantam a lua e as estrelas, se são cobertas por emissões de carbono? Do que adiantam o vento e o ar que respiramos, se estão cheios de microplásticos? Do que adianta a água, se ela está cheia de óleo? Do que adianta o fogo, se ele é usado para a destruição da mãe terra? Do que adianta a morte corporal, se a vida não é aproveitada? Os homens e mulheres de quem hoje pretendo lhes contar sabiam disso, e pagaram um grande preço por confrontarem os poderosos da terra em nome da criação do Senhor.
Irm. Dorothy Mae Stang

Quero começar falando da Irmã Dorothy Mae Stang, que completou, no dia 12 de fevereiro, 21 anos de morte. Dorothy, nascida em Dayton (Ohio, EUA), em 7 de junho de 1931, fez votos religiosos perpétuos em 1956, pela Comunidade das Irmãs de Notre Dame de Namur. De 1951 até 1966, foi professora do ensino fundamental em três escolas, duas em Illinois e uma no Arizona.
Em 1966, quando o Brasil já amargava dois anos de Ditadura Militar, mudou-se para a cidade de Coroatá, no estado do Maranhão. Desde então, voltou sua missão evangelizadora à defesa da floresta tropical do esgotamento agrícola. A partir de 1970, começou a apoiar as ocupações de terra e a agricultura familiar, além de defender os camponeses de fazendeiros e grileiros da região.
Foi morar em Vila Sucupira, em Anapu, no Pará. Lá fez história com movimentos sociais e participação em projetos de desenvolvimento sustentável. Sofria diariamente ameaças de morte, inclusive pela própria prefeitura de Anapu, onde disse em entrevista que era “persona non grata”.
Em fevereiro de 2005, dois fazendeiros, Vitalmiro Mástos de Moura e Regivaldo, usaram Amair “Tato” como mediador para contratar Rayfran das Neves e Clodoaldo Batista como assassinos de aluguel. Eles [Rayfran e Clodoaldo] matariam Dorothy em troca de R$ 50.000, exatamente na noite do dia 11/2; o assassinato falha e é cometido com sucesso na manhã seguinte (12/2).
Rayfran levou a Irmã Dorothy para um local longe do casebre onde dormia e a perguntou se não tinha medo da morte. Ela disse que não e afirmou que a Bíblia em sua bolsa era sua defesa. A Irmã foi assassinada com um tiro na cabeça e cinco no corpo.
Chico Mendes

Chico Mendes, católico praticante, nascido em 15 de dezembro de 1944, em seringal Porto Rico, em Xapuri. Trabalhou desde os 8 anos de idade como seringueiro. Conheceu ainda quando pequeno, no meio da floresta, o guerrilheiro marxista Euclides Távora, esse que o ensinou a ler e a escrever e lhe ensinou também sobre o sindicalismo.
Já adulto, em 1975, Chico fundou e se tornou o secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia. As pressões de Chico e dos seringueiros do sindicato obrigaram o governo federal a começar a coletar dados do desmatamento amazônico a partir de 1977. No mesmo ano, fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e foi eleito vereador pelo MDB; começou então a receber ameaças de morte.
Em 1980, ajudou a fundar o PT e também foi preso e torturado por “subversão” pela ditadura militar.
Graças a Mendes, pela primeira vez a morte (assassinato) de uma liderança camponesa foi noticiada no Brasil e internacionalmente: a morte de Wilson Sousa Pinheiro.
Em 1987, membros da ONU foram visitá-lo em Xapuri; nessa ocasião, ele denunciou à ONU como o Brasil usava dinheiro emprestado dos bancos internacionais para financiar grileiros e atividades ilegais envolvendo matéria-prima amazônica.
Em 1988, Chico, ao lado dos indígenas, obrigou o Estado a criar a primeira reserva extrativista da Amazônia brasileira.
Porém, no dia 9 de dezembro de 1988, deu uma entrevista ao Jornal do Brasil, onde falou sobre as ameaças de morte que recebia de forma constante dos irmãos Darly Alves e Alvarinho Alves (proprietários da Fazenda Paraná e foragidos da justiça desde 1973). Chico disse ao jornal que eles eram amigos pessoais do então delegado da PF no Acre, o Sr. Mauro Spósito. Mas o jornal não publicou a matéria, alegando que Chico mentia sobre a situação, o que se provou uma mentira do jornal quando, no dia 22 do mesmo mês, Chico foi assassinado a mando dos irmãos.
Pe. Ezequiel Ramin

Ezequiel — nascido Ezechiele Ramin — nasceu em Pádua, Itália, em 1953. Estudou no Colégio Católico Vescovile Gregorio Barbarigo, lá tomou conhecimento da pobreza no mundo.
A partir de 1972, aderiu aos Missionários Combonianos do Coração de Jesus. Mudou-se para Chicago, EUA, onde se formou em Teologia. Foi ordenado padre em 28 de setembro de 1980, em Pádua (sua terra natal), após trabalhar com comunidades indígenas em Dakota do Sul e Baja California.
Ainda em 1980, foi colocado como pároco em uma igreja em Nápoles, mas, devido ao Terremoto de Irpinia, foi voluntário em San Mango sul Calore. Retornou para Nápoles em 1981, onde organizou protestos anti-Camorra (sub-organização da máfia napolitana).
Em 1984, foi para Brasília, onde recebeu treinamento pastoral para sua futura atuação em Rondônia, na cidade de Cacoal. Em Cacoal, se compadeceu dos pequenos agricultores que eram oprimidos de formas legais e ilegais pelo governo e por latifundiários; também se compadeceu da comunidade Suruí da região, que foi obrigada a se tornar sedentária por conta de uma realocação do governo federal.
Começou então a liderar protestos pacíficos, inspirado pelo pensamento do pastor luterano D. Bonhoeffer. Desde então, começou a ser ameaçado.
Em 24 de julho de 1985, voltando de uma reunião na Fazenda Catuava, em Ji-Paraná, onde tentou convencer os posseiros a não iniciar uma guerrilha contra os patrões, foi emboscado por sete pistoleiros que o mataram com mais de 50 tiros. Seu corpo foi vigiado por indígenas Suruís por mais de 24h, até que os missionários combonianos, seus companheiros, chegassem para recolher seu corpo.
Irm. Cleusa Coelho

Irmã Cleusa nasceu em 12 de novembro de 1933, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Foi batizada em 1935 e crismada em 1951.
Desde cedo, mostrou-se uma ótima acadêmica, recebendo prêmios e convites para a vida docente. Mas, indo contra a vontade da família, rejeita essa vida e, em 1952, na Ilha das Flores, entra para a Congregação das Missionárias Agostinianas Recoletas, emitindo seus votos religiosos em outubro de 1953.
Atuou em missões no Espírito Santo, onde entrou na vida docente como diretora de escolas da Congregação. Depois, foi morar em Lábrea, no Amazonas, onde viveu por mais de 30 anos ao lado dos pobres, indígenas e detentos.
Em 26 de abril de 1985, soube de um ataque feito na Aldeia de Lapim. Ela se oferece para ir à cidade e denunciar o ocorrido, para evitar retaliações aos indígenas. No caminho de volta da cidade para a aldeia, um indígena aliado aos comerciantes, Apurimã Raimundo Padivem, atirou contra a canoa de Cleusa; temendo pela vida do jovem que a acompanhava, ela o mandou fugir, pois ele era pai. Ele foge e vai à congregação para contar sobre o ocorrido. Cleusa tinha 52 anos quando seu corpo foi encontrado, em 3 de maio, com lesões e sem um braço.
Marçal de Souza Tupã-y

Marçal de Souza Tupã-Y nasceu em Ponta Porã, na cidade de Rincão Júlio, em 24 de dezembro de 1920.
Mudou-se para a aldeia de Te’ýikue, em Caarapó, aos 3 anos; fica órfão aos 8; vive então na Nhanderoga (orfanatos indígenas). Aos 12 anos, vai com missionários para Campo Grande; conhece um oficial militar que o leva para Recife, onde trabalha em troca de educação, comida e roupa (o que, no meu ver, é escravidão).
Volta para Dourados e atua como professor e intérprete de guarani de crianças indígenas órfãs para a Missão Caiuá. Em 1959, cursa enfermagem pela OMS. Nos anos 70, começa a denunciar a situação sofrida pelos indígenas de São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Perseguido por anos, em 1978 a FUNAI o expulsa de Dourados, e ele volta a morar em Te’ýikue, mas no mesmo ano a FUNAI o realoca para outra aldeia da região.
Em 1980, João Paulo II vem ao Brasil pela primeira vez, e Tupã-Y é escolhido para representar os indígenas diante de Sua Santidade, afinal ele era um católico praticante. Na ocasião, que foi gravada, Marçal usa da oportunidade para denunciar ao pontífice os sofrimentos da comunidade indígena brasileira.
Em 1983, Marçal é assassinado com sete tiros no rancho da sua própria casa, na Aldeia Campestre. Seus algozes, Líbero Monteiro de Lima e Rômulo Gamarra, só foram julgados em 1993 e foram absolvidos.
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Irm. Dorothy… Chico Mendes… Pe. Ezequiel Ramin… Irm. Cleusa… Marçal de Souza Tupã-y… são apenas alguns exemplos de pessoas que deram suas vidas pela criação, e eu te faço uma pergunta: Você não precisa, mas está preparado para ser um/a/e Mártir da Amazônia?


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