O atual governador do estado brasileiro de Goiás, Ronaldo Caiado (do partido União Brasil), apareceu recentemente no programa Roda Viva do TV Cultura [1], onde deu uma longa entrevista e deixou bem clara sua intenção de concorrer a presidência da república, assim como deixou várias de suas intenções caso venha a se eleger igualmente claras, e as mais perigosas nas entrelinhas.
Duas grandes narrativas de grande significado foram transmitidas nessa entrevista: a primeira é que o Brasil está em desordem generalizada devido aos altos índices de crime a um certo domínio do crime organizado, ou “facções” como Caiado diz.
Esta conversa é importante para a candidatura do Sr. Caiado porque ele já bem há pelo menos dois anos tentado pintar (falsamente) o estado de Goiás como um suposto oásis de ordem e segurança, onde o crime foi supostamente colocado sobre controle por meio de uma dura repressão.
Qualquer pessoa que morou em Goiás antes e após Caiado deve ter dificuldade para acreditar que exista no mundo alguém com suficiente falta de vergonha na cara para mentir tanto, mas eu não venho aqui pedir confiança na experiência empírica do povo de Goiás, peço apenas a observação das estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: em sua publicação mais recente do Atlas da Violência [2], que aponta que o número de homicídios em Goiás está acima da média nacional e esteve nos anos anteriores do mandato de Caiado também. De forma parecida, causa estranhamento o fato que Goiás está consideravelmente na frente de estados vizinhos do Centro-Oeste em várias estatísticas da violência.
Por este e outros motivos, especialistas como o policial e pesquisador da área da segurança pública Fabrício Rosa já denunciaram a retórica de Caiado como segurança de fachada [3], assim como é sabido entre a população que Caiado nunca trouxe paz para a periferia.
Da mesma forma, a tal “segurança” que Caiado mentiu a respeito de ter trazido para Goiás nunca chegou para as mulheres: a taxa de estupro manteve-se estável no mandato dele, enquanto as de feminicídio e de violência doméstica subiram [3].
Goiás também tem um histórico de violência política na qual Ronaldo Caiado odeia tocar porque as mortes costumam ser de políticos da oposição; de forma mais emblemática a morte de Fábio Escobar [4], político da oposição que denunciou Caiado, caso no qual múltiplas testemunhas foram assassinadas.
Falando em violência política, a segunda narrativa importante para Caiado e sua candidatura foi mais que um aceno: foi uma verdadeira serenata de amor que o mesmo declarou para os golpistas do 8 de janeiro e para os fascistas defendendo o retorno da ditadura militar.
Caiado declarou em alto e bom-tom que a sua primeira ação no governo vai ser anistiar os culpados pela tentativa de golpe do 8 de janeiro em Brasília, com a desculpa de “pacificar o país” e com um discurso de “deixar o assunto para lá” já que segundo ele existem prioridades maiores.
Quando a proposta de anistia foi questionada como “drástica”, o Sr. Caiado imediatamente justificou seus atos com base no poder que teria, afirmando com todas as palavras:
“Eu não tô infringindo ninguém. Eu tenho a minha prerrogativa, a prerrogativa de Presidente da República!”.
Como ficou evidente a ética do Sr. Caiado é “o poder faz o direito”. Essa é a moral dele, esta é a crença e a profissão de fé do atual governador de Goiás, um homem que seria o primeiro a aplaudir de pé Luís XIV quando este último declarou “O Estado sou eu”, mas que também anotaria com cuidado a frase em um caderninho para repetir depois.
A tendência de Caiado à tirania não para, no entanto, quando ele pretende justificar seus atos com base em seu próprio poder, o Sr. Ronaldo Caiado também demonstra claramente uma simpatia pela ditadura militar.
Na entrevista, Caiado joga a culpa do golpe em Jânio, Jango e Brizola, afirmando que Jango era “um homem fraco, comandado por um Brizola”. Caiado parte então para se aproveitar de um sentimento anti-sulista para demonizar Leonel Brizola, afirmando que o mesmo tinha “um carisma especial, com aquele tipo gaúcho de falar das coisas” e acusar Brizola de “querer quebrar toda a ordem nacional” e de querer “estatizar tudo”, mesmo na que verdade Brizola fosse um trabalhista e muito mais moderado do quê tanto esquerda quanto direita costumam o caracterizar.
Depois deste absurdo, Caiado partiu para outro ao caracterizar o golpe e a ditadura militar como uma resposta para “as pessoas todas na rua, pedindo para que realmente salvasse o momento que nóis tava vivendo”, nas palavras do governador. Caiado demonstra aqui uma malícia especial ao esconder os militares em sua sentença, os responsáveis por tomar o poder e instaurar a ditadura a qual ele faz tanta questão de enfatizar como um “mal necessário”.
Tendo em vista a narrativa sobre um “Brasil tomado pelo crime” que Caiado apresentou anteriormente, e que ele já demonstrou que acha que pode ser justificável um regime antidemocrático se a justificativa for corrigir uma suposta desordem, somado a intenção que Caiado manifestou repetidamente de “pacificar” o Brasil, é difícil concluir o plano dele?
Agora emerge a pergunta: com a conclusão lógica do quê discutimos até agora em mente, somado a tendência da oposição em Goiás, especialmente a envolvida na denúncia de caixa 2, a ser desvivida, juntamente com as inúmeras denúncias de trabalho análogo a escravidão nas fazendas da família Caiado [5 e 6], estamos falando de um cenário impossível?
Caiado sabe das possibilidades e tenta cultivar indiretamente para si uma imagem de homem forte, ele tentar enfraquecer e atacar seus rivais, tanto dentro da direita como Bolsonaro, quanto do governo como Lula e Haddad, e criar para si uma imagem de “preparado” e “duro com o crime”, mesmo esta última narrativa sendo falsa como vimos anteriormente.
Ele tenta tomar para si o movimento da extrema-direita que Bolsonaro está perdendo velozmente conforme fica óbvio que ele será condenado. Tudo isso o Sr. Caiado faz com bem menos truculência e sem a brutalidade de Jair Bolsonaro, oque passa também uma falsa imagem de moderado que o permite apelar para o centrão.
O populismo de Caiado é notável até mesmo na forma como apresenta seu sotaque, presente o suficiente para ser reconhecido por goianos, mas não forte o suficiente para ainda despertar um pouco de simpatia da população interiorana de outros estados, assim como ele conseguiu não soar exagerado ou cômico como aconteceu com Pablo Marçal quando concorreu a prefeito de São Paulo.
Assim é o César brasileiro, ele está se aproximando com uma conversa de exterior, até suave, porém com essência muito rígida. Ele está usando uma suposta desordem na república a qual ele mesmo provou não conseguir lidar para justificar um poder que ele nem está exercendo ainda e, quando olhamos mais a fundo, através da persona de salvador e líder forte que ele busca criar, vemos um político interesseiro como qualquer outro; um até mais interesseiro que a média já que está disposto a ir longe proteger o próprio governo.
Acontece, que o povo em Goiás e no Brasil não precisa de césares, não precisa de “líderes fortes”, nem de presidente “preparados”, não precisa de “estadistas”, mesmo os mais “técnicos” ou “modernos”.
Oque a população brasileira necessita é de formas de exercer a responsabilidade por seu próprio destino, e o primeiro passo para conseguir isso é não ter oportunistas fingindo falar por nós.
[1] https://www.youtube.com/live/51g_wYigfag
[2] https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/05/atlas-violencia-2025.pdf
[3] https://www.facebook.com/watch/?v=3052249684956301
[4] https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2024/10/09/caso-fabio-escobar-testemunha-em-processo-de-pms-investigados-por-assassinato-de-empresario-e-morta.ghtml
[5] https://reporterbrasil.org.br/2014/07/tio-de-ruralista-entra-na-lista-suja-do-trabalho-escravo/
[6] https://apublica.org/2024/11/trabalho-escravo-no-passo-e-no-presente/


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