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(Português) AVISO: este artigo é de total autoria de nosse correspondente Keaka Cagle, todos os créditos para elu.
Quais são os objetivos de uma sociedade anarquista? Viver sem preconceito, com direitos de propriedade compartilhados, em comunidade, sem violência interpessoal proveniente da família, da religião e de outras formas. Uma sociedade em processo de descolonização que tenta se curar dos milhares de anos de turbulência hierárquica que controlavam o acesso à comida, trabalho, amor e liberdade.
A questão é como tornar essa sociedade possível enquanto vivemos dentro de um sistema que marginaliza com tanto sucesso esses ideais por meio de rótulos radicais e subculturas alienadas da sociedade, que limitam a adoção de valores e ideias que ajudariam o mundo?
Na década de 1970, em Nova York, nos Estados Unidos, um grupo de prisioneiros políticos e grupos de apoio em presídios criou uma estrutura teórica e uma metodologia prática para solucionar esse problema. Essa abordagem ficou conhecida como Alternativas à Violência, e diferentes vertentes desenvolveram, algumas com nuances, essa perspectiva radical, enquanto outras a mantiveram. A vertente que abordarei aqui se chama Alternativas à Violência –
Culturas de Paz e Justiça. Ela visa criar comunidades livres de violência, que compartilhem recursos excedentes entre si e assumam coletivamente a responsabilidade de se recuperar de traumas intergeracionais, abusos
religiosos e políticos, violência doméstica e familiar, além de combater a supremacia branca, o neocolonialismo e outras formas de intolerância.
Isso não é feito em um formato tradicional; na verdade, esses workshops não se parecem em nada com o que buscam alcançar para quem olha de fora. Essa é uma escolha intencional, pois, em vez de humilhação e ridicularização, esses workshops ensinam compreensão e cura. Em muitas formas de educação sobre violência, existe a ideia de que é preciso confrontar o preconceito com a verdade, por meio de confrontos explícitos e reeducação. Essa é uma medida ineficaz para obter resultados, por causar vergonha, humilhação e faz as pessoas ficarem na defensiva, o que impede a mudança do indivíduo. Muitas vezes, os ensinamentos que recebemos na infância permanecem profundamente enraizados na vida adulta, e o confronto direto com essas experiências formativas na socialização primária e secundária, dos 1 aos 7 anos, causa grande desconforto e rejeição.
Por isso, em um workshop de AVP (Ação para a Prevenção da Violência), o objetivo é proporcionar uma experiência de exploração dos conceitos de violência e não violência, em vez de um confronto sobre comportamentos. Isso permite que as pessoas façam suas próprias escolhas e formem suas próprias opiniões sobre esses temas, compreendendo a regulação emocional e a realidade compartilhada das pessoas em sua comunidade. O resultado é que as pessoas
querem se tornar melhores porque entendem porque as pessoas machucam as outras e como esses danos afetam os outros.
Esta é a melhor prática para lidar com questões como seitas, extremismo político, educação e justiça social, dentro da forma de workshop. É utilizada em prisões, regiões de conflito e comunidades ao redor do mundo visando criar culturas de paz e justiça. Este trabalho resolve uma questão essencial que assombra as ideologias anarquistas e de esquerda modernas: como chegar a um mundo de progresso onde as pessoas se importam umas com as outras e trabalham contra os males sociais sem a necessidade de violência. Muitas correntes do marxismo, do anarquismo e de outras formas de socialismo ignoram essa questão. Afirmam ser uma impossibilidade, ou perpetuam o mito da consciência de classe resultante da disciplina partidária ou de eventos radicais. As ideias de não violência são ridicularizadas como proteção do Estado, sem qualquer noção da utilidade de levar as pessoas à conclusão de que não devem machucar as outras. A visão oposta, por sua vez, frequentemente conduz à devoção fanática e ao isolamento social por parte de radicais políticos tanto de esquerda quanto de direita.
Em vez de tratar como más as pessoas que não têm a experiência necessária para se libertar das condições opressivas da sua educação, precisamos, para viver no mundo que desejamos, interagir com elas onde estão e criar uma mudança em toda a comunidade. É nisso que o programa AVP-CJP se destaca. Não é preciso violência para convencer seus vizinhos de que não é do interesse deles prejudicar os outros. Basta educação.
O funcionamento disso é bastante engenhoso:todes contribuímos e somos vítimas da violência. Quando somos vítimas de violência, seja ela verbal, física, emocional ou espiritual, isso causa danos emocionais.
Isso se manifesta em emoções como mágoa, medo e raiva primária, o sentimento de injustiça. Quando você chora, se manifesta contra a injustiça, treme e sente essas emoções, elas se libertam do seu corpo e você consegue seguir em frente. Quando você se permite sentir, as emoções não se reprimem.
No entanto, quando você reprime as emoções, isso causa uma raiva secundária, sendo o tipo de raiva que prejudica as pessoas ao seu redor. É muito provável que isso prejudique as pessoas mais próximas a você: sua família, sua comunidade e você mesmo. Essa é a raiz do porquê a violência é um ciclo e por que as pessoas não percebem o mal que causam aos outros quando a praticam.
Quando as pessoas conseguem expressar e sentir suas emoções, compreendendo por que a violência é prejudicial tanto para quem a comete quanto para quem a sofre, iniciam o processo de cura e restauração de sua comunidade. É isso que cria uma comunidade de paz. Além disso as pessoas aprendem que, quando sofrem injustiças, defender o que é certo as fortalece e que é eficaz quando feito coletivamente, criando assim uma comunidade de justiça. Tudo isso acontece antes mesmo que haja necessidade de luta revolucionária ou violência em nível comunitário.
Quando enxergamos o mundo além das lentes da vergonha e da vingança, possibilidades de progresso se abrem sem a necessidade da violência que vemos hoje em nossas vidas interpessoais e cenário social.
(English)
WARNING: This article is entirely authored by our correspondent Keaka Cagle, all credits to them.
What is AVP-CJP and why should I care as an anarchist?
What are the aims of an anarchist society. To live without bigotry, with shared property rights, communally without interpersonal violence stemming from family, religion, and other forms. A decolonizing society that attempts to heal from the 1000s of years of hierarchical turmoil that controlled the access of food, labor, love, and freedom.
The issue is how do we make this society possible while living within a system that so successfully marginalizes these ideals behind radical labels and subcultures alienated from society. Which limits the adoption of values and ideas that would help the world?
In the 1970s in New York, America. A group of Political prisoners and prison support groups created a theoretical framework and workshop application to solve this example problem. It is called alternatives to violence, as different schools developed some lost degrees of this radical approach while others maintained it. The school I will be covering is called alternatives to violence- cultures of peace and Justice. Which aims to create communities free from violence, that share excess resources with each other, and communally share the responsibility of recovering from intergenerational traumas, religious and political abuse, intimate partner and familial abuse, along with abolishment of white supremacy, Neo colonialism, and other forms of bigotry.
This is not done within a traditional format, in fact these workshops do not look nearly like what it seeks to accomplish to the outside eye. This is an intentional choice because instead of humiliation and ridicule, these workshops teach understanding and healing. In many forms of education surrounding violence their is the idea that one must speak truth to bigotry, in forms of explicit confrontation And re education. This is an ineffective measure to get results, as it causes shame, humiliation and defensiveness that closes off the individual from change. Oftentimes the things we are taught as children are deeply held into adulthood, and the direct confrontation of these formative experiences in primary and secondary socialization, ages 1 to 7, will cause a large amount of discomfort and rejection.
This is why in an AVP workshop, the goal is for an experience of exploration into the concepts of violence and non violence, rather than a confrontation on behaviors. This allows for people to have choice and make up their own minds surrounding these topics, understanding emotional regulation and the shared reality of people within their community. The end result is that people want to become better people because they understand why people cause harm and how that harm affects others.
This is best practice for stuff like cults, political extremism, education, and social justice, within the form of a workshop. It is used in prisons, conflict regions and communities around the globe for the aim for creating cultures of peace and justice. This work solves and essential question haunting modern anarchist and leftist ideologies. How can you get to a world of progress where people care about each other and work against the social ills of society without the need for
violence. Many schools of Marxism, anarchism and other forms of socialism ignore this issue. Claim it is an impossibility, or continue with the myth of class consciousness coming from party discipline or radical events. Ideas of nonviolence are ridiculed as protecting the state without any conception of the utility of having people come to the conclusion they should not contribute to harm. With the opposing view often leading to fanatical devotion and social alienation on the part of political radicals on the left and right.
Instead of treating people without the experience to break free of the oppressive conditions of their education like they are evil. To live in the world we want to see we have to engage them where they are at and create a community wide shift. This is something that AVP-CJP is effective at doing. It does not require violence to convince your neighbors it’s not in their best interest to do harm to others. It just requires the education.
How this works is quite ingenious, we are all contributors and victims to violence. When we are victim to violence whether it be verbal, physical, emotional or spiritual it causes emotional harm. This manifests in emotions like grief, fear and primary anger, the feeling of injustice. When you cry, speak out against injustice, shake and feel through these emotions they release from your body and your able to move on. When you are allowed to feel, the emotions do not bottle up. However when you bottle up emotions, it causes secondary anger, which is the kind of anger that harms the people around you. This is most likely to be harming the people closest to you, your family, your community, and yourself. This is the root of why violence is a cycle, and why people do not realize the harm they cause others when they do.
When people are able to emote and feel through their emotions, understand why violence is harmful both when they commit it and are victim too it. They begin the process of healing and restoration to their community. This is what creates the community of peace. Along with this people learn that when injustice happens to them, standing up for what’s right makes them stronger and when done collectively is effective, this creates the community of justice. This is done before any need for revolutionary struggle or violence to happen on the community level.
When we see the world beyond the eyes of shame and revenge, possibility’s to progress open up without the need for the amount of violence we see today in our interpersonal lives and social landscape.

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