Eu te pergunto: O que é ser cristão?
Você pode dizer: “Ser cristão é acreditar em Deus (o cristão)” ou “É acreditar em Jesus Cristo”. Por isso, é muito simplista!
Então, o que é ser cristão? Alguns dizem que é professar o Credo Niceno-Constantinopolitano: “Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por quem todas as coisas foram feitas e que, por nós e para nossa salvação, desceu dos céus, se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem, foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, há de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim, creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, ele que falou pelos profetas, creio na Igreja una, santa, católica e apostólica, professo um só batismo para remissão dos pecados e espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir.” Mesmo assim, isso não é ser cristão.
Ser cristão não é somente acreditar em Jesus Cristo, mas também praticar o que ele nos ensinou por meio do seu Evangelho e de sua Igreja. Seria impossível colocar todos os seus ensinamentos em um só livro, afinal, assim disse João Evangelista: “Ora, Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se todas elas fossem escritas uma por uma, creio que nem o mundo inteiro poderia conter os livros a serem escritos.” (João 21, 25). Mas todos foram resumidos a dois únicos mandamentos: “Ele (Jesus) respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo é semelhante a esse: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos.” (Mateus 22, 37–40). Todos os verdadeiros ensinamentos da Bíblia (seja no Velho ou no Novo Testamento) sempre giraram em torno desses únicos dois mandamentos, e, por isso, eu lhe digo: Nikolas Ferreira, Bolsonaro, Lula, Damares Alves, Valdemar da Costa Neto, Michelle Bolsonaro, Marco Feliciano, entre muitos outros, não são cristãos. Essas figuras acreditam no Deus de Abraão, Isaac e Jacó, mas preferem não o seguir. O Cristianismo (o verdadeiro Cristianismo) é e sempre foi uma religião minoritária e marginalizada, afinal, sua natureza é ser antissistema.
O profeta Isaías disse: “(…) aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva.” (Isaías 1, 17). Deus não quer sacrifícios e ofertas de glória; o verdadeiro cristão para de fazer o mal e começa a praticar a justiça. Ainda diz: “O Senhor está vindo para fazer um julgamento contra os anciãos e contra os chefes do seu povo: ‘Vocês devoraram a vinha e tudo o que foi roubado dos pobres está na casa de vocês. Que direito têm vocês de oprimir o meu povo e de esmagar a face dos pobres? (…)’” (Isaías 3, 14–15). Deus afirma que nenhum poderoso tem o direito de oprimir o povo; portanto, o cristão defende um sistema sem opressão.
Ainda disse: “Ai daqueles que ajuntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobrem mais espaços e sejam os únicos a habitar no meio do país.” (Isaías 5, 8). Portanto, o cristão é contra o processo de cercamento. E, sobre esse assunto, continua: “Ai daqueles que fazem decretos iníquos e daqueles que escrevem apressadamente sentenças de opressão, para negar a justiça ao fraco e fraudar o direito dos pobres do meu povo, para fazer das viúvas a sua presa e despojar os órfãos. O que farão vocês no dia do castigo, quando chegar a tempestade que vem de longe? O apoio de quem vocês irão procurar e onde deixarão suas riquezas (…)” (Isaías 10, 1–3).
Devemos denunciar os legisladores que legislam para os poderosos e não para os fracos, os pobres, os órfãos e as viúvas. O verdadeiro cristão denuncia e critica os legisladores e, ao mesmo tempo, luta por uma legislação justa para os povos.
O profeta Jeremias assim diz: “(…) porque há ímpios no meio do meu povo, espreitando, como se agacham os caçadores de passarinhos; mas preparam armadilhas para pegar gente. Como gaiola cheia de passarinhos, assim as casas deles estão cheias de coisas roubadas. Por isso, eles progrediram e se tornaram ricos, ficaram gordos e reluzentes. A maldade deles passa dos limites: não julgam conforme o direito, não defendem a causa do órfão, nem julgam a causa dos indigentes.” (Jeremias 5, 26–28).
“Assim diz o Senhor: Pratiquem o direito e a justiça. Libertem o oprimido da mão do opressor; não tratem com violência, nem oprimam o imigrante, o órfão e a viúva; e não derramem sangue inocente neste lugar.” (Jeremias 22, 3).
“Ai daquele que constrói a sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito, que faz o próximo trabalhar por nada, sem dar-lhe o pagamento, (…) Mas você não vê outra coisa e não pensa a não ser no lucro, em derramar sangue inocente e em praticar a opressão e a violência.” (Jeremias 22, 13 e 17).
O cristão se opõe a qualquer forma de trabalho que vise unicamente o lucro à custa da desgraça alheia.
Ainda encontramos condenações proféticas aos poderosos egoístas no livro do profeta Ezequiel, no livro do profeta Amós, no livro do profeta Miqueias e no livro do profeta Habacuc. Inclusive, no livro do profeta Miqueias, há uma clara declaração de que o rico só é rico porque vive da exploração, o que, a meu ver, é o proto-conceito da mais-valia — uma mais-valia primitiva, por assim dizer.
Nos Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, lemos: “Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas. Vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um.” (Atos dos Apóstolos 2, 44–45); “Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; depois, ele era distribuído a cada um conforme a sua necessidade.” (Atos dos Apóstolos 4, 34–35).
Por que ninguém era miserável nas comunidades do cristianismo primitivo? Porque viviam em sociedades comunais, seguindo o princípio: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”
Em II Coríntios, escrito pelo Apóstolo Paulo, está: “Não queremos que o alívio para os outros seja causa de aflição para vocês, mas que haja igualdade. Neste momento, o que está sobrando para vocês vai compensar a carência deles, a fim de que o supérfluo deles venha um dia compensar a carência de vocês. Assim haverá igualdade.” (II Coríntios 8, 13–14).
Paulo descreve como as comunidades devem se ajudar mutuamente. O que seria isso, se não o conceito de “Ajuda Mútua” da Federação Anarquista? O que seria isso, se não um Internacionalismo?
São Tiago disse: “E agora vocês, ricos: comecem a chorar e gritar por causa das desgraças que estão para cair sobre vocês. Suas riquezas estão podres, suas roupas foram roídas pela traça; o ouro e a prata de vocês estão enferrujados, e a ferrugem deles será testemunha contra vocês, e como fogo lhes devorará a carne. Vocês amontoaram tesouros para o fim dos tempos. Vejam o salário dos trabalhadores que fizeram a colheita nos campos de vocês: retido por vocês, esse salário clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vocês tiveram na terra uma vida de conforto e luxo; vocês estão ficando gordos para o dia da matança! Vocês condenaram e mataram o justo, e ele não conseguiu defender-se.” (Tiago 5, 1-6).
Portanto, voltamos novamente à questão da exploração e de como os ricos serão condenados.
Se o Cristianismo é tudo isso, e na teoria seria algo bom, por que só temos exemplos ruins de cristãos? Isso é uma mentira!
Tolstoi, em O Reino de Deus Está Entre Vós, diz que existe uma “conspiração do silêncio”, feita para propositalmente se esquecer dos cristãos que eram cristãos de verdade. E, é uma vergonha que o movimento de esquerda não se esforce para preservar a imagem deles. Na realidade, o movimento de esquerda esquece a religião e a trata como algo inútil.
Então vejam os exemplos e os guardem na mente, vejam o que realmente foi o Cristianismo na história.
Santo Clemente de Alexandria (150 d.C.) defendeu uma sociedade de fraternidade e partilha de bens, escreveu que os ricos não são “melhores” que os outros, por tanto não deveriam ter mais riquezas que ninguém, foi perseguido, forçado a sair de sua terra natal e ir para a Capadócia, onde viveu até a morte (215 d.C.).
Santo Eusébio de Vercelli (203–371), defendia sociedades baseadas nas dos primeiros cristãos, dizia que a riqueza deveria ser usada para favorecer o bem comum. Sofreu resistência dos setores que se alinhavam ao Império Romano.
São João Crisóstomo (346–407), foi Patriarca de Constantinopla, usou de sua posição para criticar o acúmulo de riquezas e a exploração dos pobres, além de pregar a redistribuição dos bens. Por sua posição crítica, foi exilado.
São Ambrósio de Milão (340–397), foi um bispo, pregava contra o acúmulo de riquezas e foi defensor dos direitos dos pobres. Defendeu também o uso popular da terra. Enfrentou perseguição moral, por parte da aristocracia romana e do Imperador Teodósio I.
Santo Basílio de Cesareia (330–379), fundou uma comunidade monástica voltada para o serviço aos necessitados, pregava que os bens deveriam ser partilhados. Em seus sermões, criticava os ricos e a sua acumulação de riquezas. Embora respeitado na época e ainda hoje, seu lado radical é esquecido.
São Máximo, O Confessor (580–662). Criticou a aliança entre Roma e a Igreja, preferia o modelo usado até ali, comunidades baseadas na fraternidade e na partilha. Também ensinou que grandes riquezas são contrárias ao Evangelho de Jesus Cristo. Por suas posições, perdeu seu cargo na Igreja, foi preso e teve sua língua e suas mãos arrancadas.
São Simeão, o Novo Teólogo (949–1022). Foi contra a hipocrisia dos religiosos e defendeu o modelo de comunidade da igreja primitiva. Rejeitava a ostentação do clero. Foi exilado e proibido de pregar por se opor ao alto clero.
São Bento de Núrsia (480–557), o monge que criou a Regra Beneditina, que gira em torno do lema: Ora et Labora (Reze e Trabalhe). Tais regras deram origem a comunidades desapegadas do luxo que viam o trabalho manual como essencial para a santificação. Pregou a partilha de bens. Suas ideias colocaram raiva no coração de muitos monges apegados ao luxo, era maldizido pelos iguais e sofreu tentativas de envenenamento.
São Pedro Damião (1007–1072), denunciou a corrupção na igreja, promoveu reformas monásticas e clericais. Pregava o retorno às raízes de partilha na Igreja. Arrumou inimigos no alto clero, foi exilado na própria Igreja.
Os Pobres de Assis (1181–1271). São Francisco fundou uma ordem, baseada na partilha na pobreza absoluta. Frei Leão, foi o braço direito de Francisco, anotava tudo que o amigo dizia e se comprometeu para preservar e praticar tudo isso. Santa Clara, inspirada por São Francisco, fundou uma Ordem Monástica baseada nos mesmos princípios. Os três rejeitaram a vida de riqueza da igreja e queriam uma vida baseada no desapego material. Francisco enfrentou resistência entre o alto clero, após sua morte muitos membros da ordem e do alto clero tentaram diminuir a radicalidade de seus ensinamentos, Frei Leão foi uma das principais oposições contra a institucionalização da ordem. Clara sofreu as mesmas coisas, tentaram desanimalizar sua ordem, ela lutou até o fim para a ordem permanecer como era.
São Joaquim de Fiore (1135–1202). Criou um conceito chamado “Teologia da história”, por meio dela separou a história da humanidade em 3 eras, sendo A ERA DO PAI, baseada no Velho Testamento; A ERA DO FILHO, baseada no Novo Testamento; e a ERA DO ESPÍRITO SANTO (que segundo Joaquim, estava se aproximando), e essa era seria a era da paz, da liberdade e da fraternidade, a era onde a igreja seria renovada e que a hierarquia (civil e eclesial) seriam abolidas. Após sua morte, seus textos foram banidos e seus seguidores foram perseguidos pela Igreja.
São Sérgio de Rodanej (1314–1392). Foi responsável pela reforma monástica russa. Dizia que os monastérios deveriam ser um exemplo de solidariedade e partilha. Foi contra o acúmulo de riqueza e também pregou o trabalho manual. Após sua morte, suas ideias foram sendo diluídas.
São Nil de Sora (1433–1508). Outro monge monástico, que pregou o trabalho manual. Defendeu que os mosteiros não deveriam ter títulos de terras nem acumular riquezas. Sofreu grande repressão moral por parte do alto clero da Igreja Ortodoxa Russa, foi chamado de herege e maldito.
Thomas Müntzer (1490–1525) foi um dos teólogos da era Reformada. Se tornou um líder rebelde (ou seja, do lado revolucionário) durante a Guerra dos Camponeses, entre 1524 e 1525. Müntzer virou-se contra Lutero ao perceber que Lutero pregava uma Reforma Litúrgica aos Nobres e não uma reforma social radical que aboliria as hierarquias eclesiais e políticas. Na Batalha de Frankenhausen, Müntzer e seus seguidores foram derrotados. Ele foi capturado, torturado e decapitado.
Gerrard Winstanley (1609–1676), durante a Revolução Inglesa, liderou o movimento Não-Conformista nos grupos de escavadores. Em 1630, se mudou para Londres como comerciante de tecidos, porém, em 1643, seu negócio faliu. Se uniu à Revolução Gloriosa e, após a execução de Carlos I e dos apoiadores da Monarquia, ele e outros em situação semelhante à dele se reuniram para dar voz aos “despossuídos”.
John Brown (1800–1859), foi um líder abolicionista dos Estados Unidos, antes da Guerra Civil. Ficou nacionalmente conhecido a partir de 1850 por conta de seu discurso abolicionista e por pegar em armas e usar da violência para defender o abolicionismo durante o período do Bleeding Kansas. Em 1859, foi capturado, julgado e condenado à forca pelo governo da Commonwealth da Virgínia.
Kang Pan-Sok (1900–1960), foi uma presbiteriana coreana. Era ativista do movimento comunista que lutou pela libertação da Coreia em relação ao Japão Imperial. Deu à luz a Kim Il-Sung, fundador e líder eterno da Coreia Popular. Atualmente, a Igreja Presbiteriana em Pyongyang recebe seu nome como homenagem.
E inúmeros outros como São Oscar Romero, Pe. Camilo Torres, Ir. Roger Schutz, Mons. Enrique Angelelli, Frei Tito de Alencar, Margarida Maria Alves, Victorio “coco” Erbetta, Martin Luther King Jr., Marielle Franco, Anderson Gomes, Maria Ellem Moyono Delgado, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Paulo Evaristo Arns, entre outros milhares que perderam suas vidas pelo cristianismo verdadeiro.
Entendem o que realmente foi e é o Cristianismo? É uma covardia negar que ele é realmente perseguido e atacado. Essa é a verdade que professaremos até o fim de nossos dias: “É Jesus este pão de igualdade. Viemos pra comungar, com a luta sofrida de um povo que quer ter voz, ter vez, lugar. Comungar é tornar-se um perigo. Viemos pra incomodar. Com a fé e a união, nossos passos um dia vão chegar.”
Igreja santa, templo do Senhor;
glória a ti, Igreja santa,
ó cidade dos cristãos;
que teus filhos hoje e sempre
vivam todos como irmãos.
Reunidos em torno dos nossos pastores,
Armados com a força que vem do Senhor,
Professando todos uma só fé,
Sob o impulso do Espírito Santo,
nós iremos a ti.
De nossas fazendas e nossas cidades,
De nossas montanhas e nossas baixadas,
De nossas cabanas e pobres favelas,
De nossas escolas e nossos trabalhos,
nós iremos a ti.
Com nossos anseios e nossos desejos,
Com nossas angústias e nossas alegrias,
nós iremos a ti.
Com nossas fraquezas e nossa bondade,
Com nossa riqueza e nossa carência,
nós iremos a ti.
Curvados ao peso de nosso trabalho,
Curvados ao peso de nosso pecado,
nós iremos a ti.
Confiantes por sermos os filhos de Deus,
Confiantes por sermos os membros de Cristo,
nós iremos a ti.
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