São Maximiliano Kolbe foi um padre franciscano que, em 1941, foi capturado pelos alemães e levado ao campo de concentração de Auschwitz. Celebrava missas em segredo e ouvia as confissões dos presos. Um dia, um dos prisioneiros do campo conseguiu escapar. Como punição, os carcereiros decidiram que 10 homens seriam mortos como forma de retaliação. Entre eles estava um soldado chamado Franciszek Gajowniczek, que implorou por sua vida, lembrando-se de sua esposa e filha. Sensibilizado pela situação, Maximiliano deu um passo à frente e disse: “Quero morrer no lugar deste prisioneiro. Não tenho esposa nem filhos. Além disso, sou velho e não sirvo para nada.” O comandante local aceitou a proposta. Maximiliano e os outros 9 homens foram levados para uma cela onde morreriam de fome. O padre conduziu louvores de adoração e orações. Os homens foram morrendo um a um, e Maximiliano foi o último a morrer, sobrevivendo por duas semanas antes de lhe aplicarem uma injeção letal.
É uma história impressionante. Na realidade, seria! Se Maximiliano não fosse uma figura extremamente controversa, ligada ao antissemitismo e ao fascismo. Serei breve sobre o assunto, pois isso não é um artigo ou ensaio, são simplesmente as conclusões que tirei por meio da minha pesquisa sobre esse santo. Imagine isso como uma nota de rodapé no livro gigantesco que é a história das canonizações dos últimos 2.000 anos.
Para começar, vamos falar sobre o seu antissemitismo. Em 1922, inspirado por um periódico católico francês, chamado Le Messager du Cœur de Jésus (Mensageiros do Coração de Jesus), Kolbe fundou seu próprio periódico, que se chamou Rycerz Niepokalanej (Cavaleiros da Imaculada). Nesse periódico, na sua primeira edição, abordou um suposto complô judaico-maçônico cujo objetivo era destruir a Igreja Católica. Ele dizia: “[os maçons são] como uma camarilha organizada de judeus fanáticos, que querem destruir a Igreja [Católica].”. Em uma coluna do mesmo periódico, em 1924, Kolbe narra a conversa que teve em um trem que ia para Varsóvia, com uma mulher e um jovem sionista. No meio da conversa, Kolbe menciona que a região da Palestina era pequena demais para comportar todos os judeus e pergunta (de maneira maliciosa) se os sionistas tinham um plano maior, ao que foi negado tanto pelo jovem sionista quanto pela mulher. Nesse “não”, Kolbe faz uma nota de rodapé, mencionando que “Nem todos os judeus sabem disso, mas os fundadores do sionismo estavam mais interessados em dominar o mundo inteiro. Uma forte evidência disso são os Protocolos dos Sábios de Sião.”. Por sua vez, esse livro que Kolbe cita é um texto conspiracionista que fala de um suposto complô judaico para a dominação mundial. Em 1939, em um calendário que era organizado por sua organização religiosa, ele escreveu: “O comunismo ateu parece se espalhar cada vez mais descontroladamente. Sua origem pode ser facilmente localizada naquela máfia criminosa que se chama Maçonaria, e a mão que guia tudo isso em direção a um objetivo claro é o sionismo internacional. O que não deve ser entendido como significando que entre os judeus não se pode encontrar boas pessoas.”. No total, Kolbe escreveu 10.006 cartas e 396 outros escritos; desses, 31 eram sobre algo envolvendo o povo judeu, o Judaísmo ou o Sionismo. Mesmo assim, eu não vejo isso como um argumento válido para “passar pano” para todas as coisas antissemitas que ele escreveu e transmitiu por meio de sua própria revista. E não estou negando que ele realmente ajudou judeus, refugiando-os em seu mosteiro antes de ser capturado; só lembro que uma coisa não anula a outra.
Assunto dois: Fascismo. Embora Kolbe e sua congregação tenham lutado contra o fascismo (o nazismo, neste caso), é muito estranho ver como, ao mesmo tempo, em que combatia o fascismo alemão, ele permanecia próximo e aliado ao Movimento Fascista Polonês. Enquanto Kolbe estava em viagem missionária na Índia, a Niepokalanów (Cidade da Imaculada, mosteiro fundado por Kolbe) iniciou a publicação do jornal diário Mały Dziennik (O Pequeno Diário), com a ajuda do Obóz Narodowo-Radykalny, que é um grupo fascista polonês existente desde antes da Primeira Guerra. Pode-se afirmar que foi algo feito sem o conhecimento de Kolbe, e a afirmação de que ele não tinha conhecimento dessa aliança é correta, mas, após sua volta à Polônia, ele é colocado como um dos diretores do jornal e, mesmo assim, não corta as relações entre o jornal e a organização. Após a morte de Kolbe, já atualmente, uma série de livros chamada Brunatna Księga (Livro Marrom) foi lançada na Polônia. Sua finalidade era contar e analisar a história do movimento fascista polonês desde 1996. Na edição que fala de 2011 e 2012, Kolbe é citado da seguinte forma: “Em 11 de julho, após a missa na basílica local, o franciscano Padre Marek Wódka, em uma conversa conduzida pelo redentorista Padre Grzegorz Moja, afirmou que as publicações antissemitas de Padre Maximiliano Kolbe eram ‘uma expressão de sua preocupação pela conversão dos judeus e pelo bem da pátria, que, como sabemos, estava ameaçada por certos grupos judeus’. A conversa foi transmitida pela Rádio Maryja.” E ainda assim, a relação entre Niepokalanów e o Obóz nunca acabou, apenas mudou de forma. Em uma publicação de 2018 no próprio site do Obóz, está escrito: “Todos os primeiros sábados do mês são organizadas viagens para confiar os problemas e pedidos à Nossa Senhora. Mais uma vez, ativistas da Brigada Łódź da Obóz participaram nesta peregrinação.”.
Terceiro assunto: Prisão, Soldados da SS e tratamento especial. Na minha opinião, este é o assunto mais difícil de se tratar, porque há muita especulação e poucas fontes. Segundo a história “oficial”, Kolbe teria sido preso em 14 de fevereiro de 1941 pela Gestapo por ser um formador de opinião anti-regime nazista e por abrigar em seu mosteiro, judeus e membros da resistência polonesa. No entanto, não existe nenhum documento sobre ele, nem no site do Museu do Holocausto, nem no site russo-germânico de digitação dos documentos da Gestapo, que estão nos arquivos da Federação Russa. O único documento que encontrei foi sua certidão de óbito, que alega miocardite. Sobre a questão do tratamento especial, também não encontrei nada. Não sobre o fato de ele não ter recebido tratamento especial, mas sim porque não há documentos sobre sua estadia no campo de concentração. Acho que não exitem fotos dele no campo nem com o uniforme de prisioneiro (pelo menos eu não achei nenhuma), assim como não há nenhuma foto de perfil tirada pelo campo de concentração como uma forma de arquivo de consulta. Mesmo assim, suas representações artísticas o retratam usando o uniforme de prisioneiro por cima do hábito franciscano ou apenas com o uniforme de prisioneiro. Ainda sobre o “tratamento especial”, há uma foto dele sorrindo ao lado de um oficial da SS. Eu vejo isso como algo meio estranho, mas, como quase todas as suas fotos, é quase impossível achar um contexto sobre.
Ultimo assunto, sua morte. Kolbe, na minha opinião, tem uma morte muito confusa. O evento que ficou para a história foi o que contei no início, onde ele deu sua vida por um soldado polonês. Porém, o certificado de óbito emitido pela Gestapo diz que ele morreu de miocardite, o que faria sentido, afinal ele tinha tuberculose, e em inúmeras situações foi afastado de suas funções (antes da prisão) por conta de recomendações médicas. Eu, pessoalmente, não acredito muito na versão que ficou famosa pela história, afinal, o jeito que é descrito seu estado final de vida parece que ele já tinha entrado em uma espécie de estado vegetativo: “Frei Maximiliano Kolbe, desnudo, esquelético como um crucifixo românico, estava ainda sentado na posição dos últimos três dias, com a cabeça levemente inclinada para a esquerda, a suavidade de um sorriso nos lábios, os braços abandonados sobre o corpo, as costas apoiadas na parede do fundo. Diante dele, três corpos descarnados pela fome e pela sede, estendidos no chão sem sentidos, mas ainda vivos. O Dr. Boch moveu-se, frio, impassível, em direção aos quatro últimos sobreviventes da longa agonia de vinte e um dias. Pôs um joelho ao chão, amarrou o laço hemostático no braço esquerdo do primeiro, enfiou a agulha na veia, desfez o laço e comprimiu o êmbolo. Repetiu, depois, a mesma operação nos outros dois que jaziam ao solo, e cada vez, antes mesmo que a agulha fosse extraída da veia, o ácido fênico injetado já havia cumprido sua obra. A imobilidade da morte o testemunhava. Agora era a vez de Maximiliano Kolbe. O carrasco de uniforme branco levantou-se e dirigiu-se até ele. Então, ‘frei Kolbe’, contara Bruno Borgoviec, ‘com uma prece aos lábios, ofereceu, ele mesmo, o seu braço ao algoz. Eu não pude mais resistir, meus olhos não quiseram mais ver e, murmurando um pretexto – que devia trabalhar no escritório – fugi…’”. Mas, ao mesmo tempo, eu não confio no atestado do campo de concentração, afinal só o encontrei em uma postagem do Twitter, e esse post não deu uma fonte de onde tirou aquele atestado de óbito.
Sobre ele ser santo ou não, gostaria de recordar o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 828, onde diz: “Ao canonizar certos fiéis, isto é, ao proclamar solenemente que esses fiéis praticaram heroicamente as virtudes e viveram na fidelidade à graça de Deus, a Igreja reconhece o poder do Espírito de santidade que está nela, e ampara a esperança dos fiéis, propondo-lhes os santos como modelos e intercessores (308). «Os santos e santas foram sempre fonte e origem de renovação nos momentos mais difíceis da história da Igreja (309)». «A santidade é a fonte secreta e o padrão infalível da sua atividade apostólica e do seu dinamismo missionário» (310).”. Em nenhum momento, o CIC diz que isso é uma doutrina, no sentido de que você seja obrigado a aceitar a santidade do fiel canonizado.
Fontes:
- Mass Is Set For the Saint Of Auschwitz, Joyce Wadler, The Washington Post
- Mass Is Set For the Saint Of Auschwitz, Joyce Wadler, The Washington Post
- 967 – Czy prawda się zmienia?, M[aksymilian] K[olbe], Niepokalanow.pl
- SAINT CHARGED WITH BIGOTRY; CLERICS SAY NO, Henry Kamm, The New York Times
- Was St. Maximilian Kolbe an Anti-Semite?, Becky Ready, EWTN
- The history of Saint Maximilian Kolbe – Prisoner #16670
- Brunatna Księga, Stowarzyszenie Nigdy Wiecej
- Brunatna Księga, Marcin Kornak, Stowarzyszenie Nigdy Wiecej
- Brigada Łódź: Peregrinação a Niepokalanów, ONR
- Kolbe – herói e mártir do campo de extermínio de Auschwitz, Sergio Lorit, Editora Cidade Nova. pp. 83–84
- The death certificate issued by the SS administration confirming the death of Father Maximilian Kolbe in #Auschwitz ops 14 August 1941. The cause of death given is “Myocardinsuffizienz”: myocardial insufficiency. Kolbe was murdered with a phenol injection in the starvation cell.
- Catecismo da Igreja Católica.
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