A proeminência da Dona Maria hipotética só vem crescendo na esquerda e… Ok, vamos precisar de um pouco de contexto para explicar.
Na década de 2020, começou a se tornar recorrente no discurso político brasileiro, sobre tudo na internet, o costume de questionar se a maioria da população em abstrato vai entender ou apoiar algo com frases do tipo “a Dona Maria vai entender isso?”, ou, para fechar o casal “o Seu Zé da Padaria vai ligar pra isso?”.
Essa, obviamente, é uma tentativa de perguntar se uma pessoa “comum” hipotética iria aprovar algo, e usar isso como medida de se esta seria uma política apoiada ou não pela população. Segundo qualquer quesito, para a “esquerda radical”, esta é uma lógica estúpida.
O movimento revolucionário sempre esteve em uma contradição aberta e inescapável: ele defende o progresso social, e isso implica diretamente nos interesses do povo: fim da sociedade de classes, exploração do trabalho, tomada dos meios de produção e distribuição de bens, revolução socialista, etc.
Esta defesa se torna uma contradição no momento em que a sociedade atual em grande parte se opõe ao mesmo progresso que a beneficia diretamente. Por uma longa série de fatores, é comum acreditar que a propriedade dos patrões deve ser respeitada, que revolução é algo impossível ou que a sociedade de classes não deveria acabar porque a classe capitalista mereceria tal posição.
Isso é tudo necessário para se entender que a Dona Maria hipotética em muitos casos não vai aprovar a pauta do movimento revolucionário e que, tendo em vista que não se pode agradar o mundo todo, essa seria só uma questão de bola pra frente e tentar dialogar com a próxima pessoa.
O problema começa quando uma parcela não pequena do nosso movimento insiste em, ao invés de tentar morder aquilo que se pode mastigar como qualquer lógica conclui nesse caso, tentar buscar um eterno mínimo denominador comum que nunca vai ganhar o povo inteiro de uma única vez como estes camaradas mais apressados tanto querem. Este cenário se torna pior quando há também uma clara tentativa de usar esse discurso direitista para camuflar a discriminação e tentar reduzir a importância de, ou mesmo abandonar a pauta de, minorias sociais, especialmente a das pessoas trans.
Existem camaradas que apontam, tanto com razão quanto boa fé, que o setor direitista que recorre a falácia da Dona Maria hipotética está superestimando enormemente o quão reacionária é a maioria das pessoas. Esta é uma tese correta, porém que, se me permitem apontar um erro, não é conclusiva e não encerra o assunto, pois não lida com a antinomia central na questão.
Existe no centro deste e de qualquer outro debate público uma dicotomia maior, de forma que só se pode verdadeiramente solucionar a questão tratando dele diretamente. Neste caso em específico, a questão central é de uma pauta branda, que vai atingir muitas pessoas, porém tirar de todas elas uma pequena dedicação, ou de uma pauta incisiva que vai atingir poucas pessoas, porém tirar delas uma grande dedicação. É impossível encerrar esta discussão de forma satisfatória que sem deixar uma posição clara nesta dicotomia.
Mas qual lado nós anarquistas devemos tomar nessa disputa?
Segundo não somente toda a teoria revolucionária do anarquismo, mas também segundo toda a política e propaganda moderna, a única alternativa viável é apenas uma. Toda e qualquer base vai levar rumo à conclusão de que é melhor um na mão que dois voando, mas é necessário elaborar mais que isso, e diferente do pessoal da “Dona Maria”, eu vou usar uma base teórica.
Pierre-Joseph Proudhon deixou tudo em termos muito claros: quando atos falam, palavras não são nada.
Esta declaração, muito simples e muito direta, ainda não foi compreendida. Foi necessário que Pisacane falasse de outra forma: as ideias nascem das ações, e não o contrário.
E mesmo assim, essa afirmação, que possui a simplicidade mais óbvia possível, ainda não foi entendida. Foi necessário que Bakunin a esclarecesse ainda mais:
Há homens, muitos homens na burguesia supostamente revolucionária, que ao pronunciarem algumas palavras revolucionárias, julgam fazer a revolução, e que, depois de as terem pronunciado, se julgam com o direito de cometer atos de fraqueza. inconseqüências fatais, atos de pura reação. Nós somos revolucionários para valer, fazemos absolutamente o contrário. Falamos pouco de revolução, mas fazemo-la.
— Mikhail Bakunin, Tática e Disciplina do Partido Revolucionário.
E mesmo assim, essa declaração tão clara ainda não foi verdadeiramente internalizada ou se tornou o consenso entre nós! Será que ainda há esperança? Há sim na forma de uma última medida, eu vou ilustrar o que essa lógica quer dizer com alguns exercícios de pensamento:
Já que, por motivo legal, não nos é possível discutir violência atualmente (e, aliás, eu gostaria de avisar para as autoridades que me oponho a ela), vamos pensar em um cenário histórico.
Você está na Espanha, em 1936. Você ainda não tem noção disso, mas daqui a poucas semanas acontecerá a maior experiência prática do anarquismo e a única revolução que conseguiu implantar o socialismo em um país “desenvolvido” até o momento (01 de Outubro de 2025).
Você está caminhando do trabalho até a sua casa e avista uma figura detestável: é um carlista, um estranho tipo de monarquista fascista e ele está berrando para pessoas ao redor, metade discurso, metade ameaça. Esse mesmo sujeito já está causando problemas pela terceira vez na semana e a sua paciência está no limite.
De repente, ele grita algo bizarro, inaceitável, e está pregando isso para um grupo considerável de pessoas, sua paciência já acabou.
Talvez com uma ferramenta do seu trabalho, digamos, uma chave-inglesa, talvez com uma garrafa que você estava bebendo no caminho, talvez com um tijolo que você tenha apanhado na rua, você anda na direção do carlista com a intenção de acertá-lo na cabeça. Ah, e detalhe importante, você é parte de uma das milícias da CNT-FAI e por acaso está com o uniforme, logo as pessoas vão ter ver como representando a sua organização e a causa anarquista em suas próximas ações.
Você pode decidir “ser melhor” que ele, largar o que tem na mão, apontar o dedo na cara do sujeito e começar a tentar destruí-lo com argumentos.
Vamos supor que ocorreu o melhor cenário possível, ele não pôde rebater nada do que você disse, não te atacou e foi pra casa envergonhado.
Não há como duvidar de boa fé de que a reação de quem assistia seria positiva, as pessoas ao redor talvez criem uma apreciação um pouco maior pelo anarquismo, já que alguém que o representa pode falar bem e soube manter o decoro numa situação como essa, mas elas vão lutar pelo anarquismo? Elas vão, na verdade, fazer literalmente qualquer coisa por ele? Quantos partidos ou grupos de esquerda será que elas não viram falar muito bem só naquela semana? Será que semana que vem elas vão lembrar algum detalhe além de quê alguém discutiu com um carlista?
Agora vamos para o outro extremo, vamos supor que você de fato acertou o carlista na cabeça com o que tinha nas mãos, bem no rosto.
O combate de curta distância nunca é bonito, provavelmente você quebrou mais de um dente, viu algum derramamento de sangue e dependendo da sua força física talvez você desloque a mandíbula ou experiencie o horror corporal da violência em outras manifestações.
A plateia, por falta de termo melhor, certamente vai estar acalorada.
Algumas pessoas vão gritar, algumas vão sair correndo, talvez alguém desmaie, um milhão de coisas vão acontecer… Mas todo mundo vai se lembrar da cena na semana que vem, pra bem e mal.
E cá entre nós, uma ou outra pessoa vai passar a ver o anarquismo como uma ameaça que precisa ser parada. Mas se um ato isolado de uma pessoa levou ela a essa conclusão, esse não era um destino inevitável? E novamente, ela vai fazer literalmente qualquer coisa a respeito ou vai só torcer pra isso em casa?
Suponhamos, no entanto, que uma ou duas, talvez até três, pessoas em contraste vejam isso e decidam que, ao contrário dos 50 mil partidos e associações que já procuraram ela naquela semana, anarquistas são quem realmente faz alguma coisa ao invés de só conversar fiado e decidam entrar para a FAI ou a CNT, talvez as duas, porque ninguém mais vai fazer algo a respeito do fascismo.
Qual dos dois cenários valeu a pena?
Me permita fazer, no entanto um exemplo muito mais direto: você perdeu o lugar onde morava por causa da suas convicções políticas, o que vale mais? Mil mensagens de “força, você faz um trabalho importante!” nas redes sociais ou uma única pessoa que vai deixar que você durma na casa dela? Escolha com sabedoria.
Este é o dilema que a teoria anarquista não somente resolveu, mas que apontou que o capital resolveu também e se posicionou do mesmo lado por razão de pura eficiência: Jacques Ellul nos revela que a propaganda é efetiva por que se foca primariamente em incentivar a ação, e se por caso atrai apoiadores passivos, embora não seja a intenção direta, isso funciona como um bônus para o propagandista.
Até mesmo o marketing capitalista se vale dessa verdade, isso é observável por meio do entendimento de que somente uma parte do público afetado vai de fato comprar o produto, o que diga-se de passagem é claramente o objetivo principal. Mas, ao mesmo tempo, “memetizar” o produto não é algo ruim, muito longe disso, na verdade, mas é tudo uma questão de que este é um resultado da propaganda que tem como foco principal a ação (venda, neste caso), e não sua intenção primária.
Enfatizo novamente: ganhar apoiadores passivos para o anarquismo é algo a se dispensar completamente? De forma alguma! Mas não deve ser o nosso objetivo principal, que sustento mais uma vez, é ganhar camaradas.
Isso se sustenta também ao longo da teoria socialista. Criar um movimento grande o suficiente por si só não resultará numa revolução, uma vez que as condições necessárias (que no meio marxistas também sejam chamadas de subjetivas) não necessariamente estarão dadas somente em virtude de se ter um movimento grande. Em contraste, com um movimento ativo e com quadros fortes, é possível tomar ações estratégicas que vão ganhar o povo quando as condições subjetivas chegarem, como é observado com a atuação anarquista em qualquer revolução.
Tornando a deixar claro, não negamos e, na verdade. afirmamos o fato que somente a revolta do povo pode conduzir uma revolução, mas não é por meio de uma propaganda fraca, baseada num falso mínimo denominador comum, em conformidade com o conservadorismo da sociedade atual, que vamos nos provar diferentes que a esquerda eleitoreira e pelega. O método anarquista é ganhar destaque por meio da ação.
Ultimamente, é necessário lembrar que o derrotismo romântico de “seremos sempre minoria” é falso, como a prática das revoluções, especialmente a espanhola, provaram. A questão é que “forçar” uma massificação por meio de tentativas de tornar as nossas ideias palpáveis ao status quo reacionário atual não é a estratégia adequada para conduzir a esse momento de ampla popularidade do anarquismo. A nossa estratégia é a de um caminho mais estreito, porém que certamente levará para o objetivo.
Com tudo isso em mente, torna-se necessário lembrar que isso necessariamente implica tanto em apelar para, quanto defender com unhas e dentes, as minorias sociais e pessoas discriminadas na nossa sociedade do quê apelar para uma sensibilidade conservadora e fútil de quem já é aceito nela, a sensibilidade cis-heteronormativa, fragilidade que não tem tanto interesse ou motivo para participar do único objetivo do movimento anarquista que é destruir o todo do mundo civilizado.
Na verdade, uma pauta verdadeiramente anarquista, ou seja, revolucionária e oposta a todo elemento retrógrado da sociedade atual, vai entrar em conflito com todas essas fragilidades baseadas naquilo que é entregue pelo capital.
E aqui entra o centro da questão que conecta tudo que disse até agora: não faltam políticos sociais-liberais para mimar ainda mais a mesquinharia de quem está confortável com os valores dessa sociedade detestável, acreditar na revolução e agir dessa forma é estupidez de um ponto de vista estratégico, é escolher oque não trará benefício nos dois elementos. Nós anarquistas, em contraste, não ganhamos nada criando currais eleitorais, nosso interesse está na ação.
Com tudo isso em mente, eu afirmo de peito aberto que foda-se se a Dona Maria não vai aceitar o pronome neutro e que mais vale para mim e para o movimento real ganhar ume companheire de luta não binárie que mil apoiadores da boca para fora.

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