A crise da educação é mais profunda do que parece
Durante toda minha vida escutei que a educação no Brasil estava em crise, não era mentira, aliás, era algo muito mais verdadeiro do que parece, sim, a educação brasileira estava em crise. Hoje, a educação brasileira não está mais em crise.
Ao ler essa frase, a primeira conclusão que muitos vão tirar é que ou eu estou insana ou tem alguma pegadinha, afinal, o ensino brasileiro ainda está em crise, temos vários problemas na educação, o problema dos celulares, da baixa atenção dos estudantes, da baixa retenção, dos direitos dos professores e tudo isso, mas não, leitor, eu digo… A educação brasileira não está em crise, ela já colapsou.
Estamos vivendo em um corpo andante da educação, como um experimento grotesco do século 19 onde se usava eletricidade para animar corpos ainda utilizam-se na educação medidas sem estruturação socioeducacional para manter a aparência de uma educação, nem sequer podemos chamar de morta viva pois isso significaria que pelo menos um pouco de anima está presente, que o corpo se move sozinho mesmo que sem rumo, não, o corpo se move para um rumo, para um abismo, animado não por si mesmo mas por forças externas tentando fazer a educação parecer viva e andante.
A educação brasileira está sujeita neste momento há décadas sofrendo esvaziamento neoliberal, privatizações, alterações de currículo e bases da educação que priorizam não a educação em si, mas uma falsa ideia de que coisas existem para formar trabalhadores e serem “úteis” as ferramentas do capital.
Ao mesmo tempo, alunes e professores estão nessas mesmas décadas expostos a relações algorítmicas de redes sociais que promovem constantemente ideologias do neoliberalismo e de suas forças.
Existem também conjuntos de mentalidades tóxicas que cada vez mais permeiam a educação até em meios da esquerda, onde se confundem conceitos e se constroem ferramentas que, no fundo, priorizam não a educação, mas a percepção de um espetáculo.
Um desses efeitos também é a ideia de que “a educação não é divertida o suficiente”, mais um motivo da construção da educação como um espetáculo do capital e não como uma ferramenta real do indivíduo, seja para sua emancipação ou participação social.
Durante esta discussão, pretendo embasar o argumento e posicionar como lidar com a nova realidade da educação, como criar uma educação libertária e libertadora para todes.
Como a educação colapsou
Muitas pessoas acreditam que colapsos são sempre barulhentos, cheios de revoltas ou problemáticas, onde algo muito dramático acontece e tudo termina em chamas como nas pinturas romanas, porém, as coisas são mais complicadas do que parecem nesse aspecto, sim, estes são componentes comuns de muitos colapsos, mas muitos sistemas colapsam com um suspiro e não com um grito.
O colapso muitas vezes é silencioso, calado, formal até um dia as coisas funcionam e lentamente os sistemas que sustentam essas coisas começam a se desmantelar, por diversos fatores e, quando as pessoas finalmente notam. O sistema não funciona mais, tudo que ele representa se desmantelou há muito tempo.
A educação colapsa de forma parecida, todos notaram a crise e, ironicamente, pela crise ter durado tanto tempo, ela parece normal, o estado onde tudo está normal, criando ironicamente o sistema que vai levar a um colapso silencioso. Durante tantos anos, a educação parecia um problema intocável, que essa política do desespero cria o ambiente perfeito para seu desmantelamento.
Sim, houve protestos, mas estes vieram tarde demais em um sistema que já se mostrava frágil, a remoção do prego final da educação não a tiraria do caixão. Muitos podem estar pensando em diversos elementos, mas tem um em particular que foi o que levaria ao colapso total do sistema educacional.
O evento ao qual me refiro é a política do novo ensino médio, aplicada entre 2016 e 2018 pelo governo Michel Temer, sem dúvida o governo mais destrutivo às instituições de segurança e melhorias sociais, por mais fracas que fossem, no território nacional. Durante esse processo, o novo ensino médio foi a última gota d’água que levaria a educação brasileira ao colapso.
Em 2020, a pandemia atingiu o Brasil, não só não ajudou como eliminou quaisquer resquícios de vida do sistema educacional brasileiro, além de eliminar suas frentes de luta. A Covid tem diversas consequências conhecidas para o aprendizado, cognição e memória, além de diversos fatores como os lockdowns constantes e a total ingerência criminosa e genocida de Bolsonaro durante a pandemia que levou a centenas de milhares de mortos.
Diversos lockdowns, problemas por anos e, é claro, consequências nas educações de três gerações inteiras que tiveram anos inteiros de suas educações em um constante vai e vem online e presencial, muitos tiveram parentes que morreram por covid, principalmente nas populações mais pobres.
Atualmente, vivemos em um mundo pós-tudo isso, a educação brasileira é um corpo ambulante animado pelas forças neoliberais para dar uma impressão de que as coisas ainda funcionam, e claro, em escolas individuais coisas ainda devem funcionar aqui e ali, o corpo ainda anda, afinal. Porém, toda a proposta da educação brasileira, que já era fundamentalmente falha e quebrada desde sua inserção, neste momento falhou.
As escolas no Brasil, sistemicamente, têm maquiado números para servir a um sistema cada vez mais brutal e exigente de notas e demandas sob penalidades de redução de fundos às escolas. Esse sistema pode variar de estado para estado, cada estado tem sua realidade de financiamento escolar e mesmo assim os sistemas escolares têm se tornado cada vez mais enrijecidos.
Comparado com tempos anteriores, escolas têm melhorado sua infraestrutura de forma bem grande e, ao mesmo tempo, tornado a estrutura da escola cada vez mais alienante e cada vez mais parecida com os sonhos molhados de Foucault. Escolas em si se tornam áreas de isolamento e não ferramentas de integração e emancipação social.
Escolas maquiando seus números, estudantes constantemente desanimados e desconectados das realidades do ensino, a própria defasagem do ensino e o sangramento de teorias neoliberais que continuamente inserem a mentalidade de que o estudo não é necessário para ganhar dinheiro. Alunes que cada vez mais se desconectam das aulas se mantêm cada vez mais.
Isso não é culpa des alunes, não é culpa des professores, isso é apenas a consequência natural de como a escola se constrói desde sua criação. O modelo austríaco que se torna tecnicista durante a ditadura militar e suas falhas na relação nunca são realmente apropriadamente lidada por nenhum dos governos, nem os ditos de esquerda, aliás, estes apenas reforçaram sua realidade tecnicista, enrijecida e, acima disso, violenta.
Não dá para salvar o que já está morto
Não dá para salvar a educação no Brasil, para salvar algo tem que haver algum respiro de vida naquilo e o que a educação brasileira tem é movimento, mas não vida, a burocracia continua a rodar, as escolas funcionam em teoria, os alunos vão para a escola, notas são desenhadas, escolas são fundadas, mas tudo não passa de um teatro de construção de imagem.
As escolas funcionam, mas seus problemas são maquiados, afinal, escolas são punidas caso problemas apareçam de verdade. Isso se manifesta em todos os níveis escolares, de bullying até notas e problemas, alunes não têm incentivos mentais, físicos, estruturais ou emocionais para engajar em nenhum nível com uma instituição que muitos veem como inútil.
E então entramos no problema de alunes. Alunes estão cada vez mais inserides em uma estrutura digital e propagandística neoliberal, onde a escola formal é cada vez mais removida de sua importância por uma ideia falha e falsa de que ela não é necessária em nenhum nível, na qual a educação em si é algo que não trará benefícios por si só e que deve provar a si mesma como algo bom a cada curva.
Isso não quer dizer que este modelo de educação enrijecido em si , ensimesmado, autoritário e pouco pensante seja bom, porém a construção de alternativas dentro de uma sociedade capitalista , principalmente com um histórico escravista , como no brasil, sempre termina em ‘educação para quem merece’ e quem ‘merece’ sempre é rico, branco e com pais educados, a alternativa capitalista ao modelo morto educacional brasileiro é a construção de castas educacionais e de populações incapazes de construir suas próprias realidades.
A educação então está sendo guiada como um corpo morto ao abismo, cada dia mais partes da educação e do meio escolar são privatizadas, sucateadas, destruídas, desmanteladas ou simplesmente esquecidas, professores a cada dia têm sua autonomia removida, como o ideal tecnicista aplicado funciona, a cada dia alunes são tratades mais e mais como produtos e números do que como agentes de suas formações e emancipações.
Há ainda quem diga que o modelo do Brasil é inspirado em Paulo Freire. Paulo Freire chora em sua cova enquanto Foucault goza com tantos presídios novos.
Até mesmo as metodologias ativas, das quais se fala tanto hoje em dia como salvações mágicas para esse sistema, nada mais são que formações e distorções grotescas de metodologias socialistas e libertárias removidas de seus contextos para que se adaptem ao meio de sala de aula existente. Não existe salvação, metodologias ativas nada mais são que parte do mesmo espetáculo que continua o show grotesco de movimentação de um corpo morto em direção ao abismo.
Nenhuma solução mágica vai vir enquanto ainda batermos palmas para um corpo morto caminhando em direção a um abismo, enquanto fingirmos que esse corpo está vivo e tem chances de salvação.
Nenhuma quantidade de metodologias ativas de falsas formações ou ‘centralizações di alune’ em sala de aula ou quaisquer falsas premissas de nossa educação vão salvar o corpo que já caminha para o abismo. Para salvar a nossa educação, devemos reconhecer o primeiro fato: ela não existe mais.
Logo, por que continuar com o modelo que nos trouxe aqui em primeiro lugar?
Uma alternativa extremista, radical e até mesmo louca
O Brasil é um país colonialista, é um país racista e é um país que quer fingir que seus problemas não existem. Acima de tudo, a escola colapsou, não tem volta, não tem como salvar um corpo caminhante sem o mínimo de força própria e fingir que esse corpo continua tendo o mínimo de fôlego tentando salvar essa carcaça não só não vai nos levar a lugar nenhum como vai piorar drasticamente tudo que ele toca.
Durante anos, diversas propostas têm surgido na tentativa de “salvar” a educação. Propostas como “vamos fazer os professores serem palhaços mal pagos”, “vamos tirar os celulares dos alunos”, “a culpa é da IA pelo colapso da educação” ou, em contraponto, “na verdade, são as redes sociais”, e “vamos incorporar mais IAs no ensino” formam ciclos de diagnósticos superficiais.
Embora cada uma dessas ideias carregue alguma intenção, todas partem de uma premissa em que a educação brasileira, em sua essência, ainda funciona, e que basta aplicar uma correção pontual para resolvê-la.
Sim, a inteligência artificial apresenta muitos problemas na educação, inclusive estou desenvolvendo um artigo sobre isso para o futuro. No entanto, o que a IA evidencia não é apenas uma disfunção tecnológica, mas uma falha estrutural e sistêmica de todo o modelo de ensino. Mais do que causar novos problemas, ela escancara as fraturas de um sistema autoritário e incapaz de verdadeiramente mudar o Brasil.
É o mesmo que ocorre com a presença dos celulares em sala de aula, ou a “falta de interesse dos alunos” e com tantos outros sintomas frequentemente apontados como causas da crise educacional. No fim, o peso recai sobre o professor ao qual exigem milagres com muito pouco.
A educação, ao fim do dia, não é mágica, muitas vezes não é excitante, não importa a matéria de estudo, não importa seu campo, muitas vezes você tem de sentar e estudar, e ler, seja história, matemática, filosofia ou química, é necessário sentar-se e estudar, o processo pode variar de indivíduo para indivíduo, mas sempre será necessário.
Você pode ouvir um audiolivro se tiver dificuldades de ler, é claro, e pode ler se tiver dificuldades de processamento auditivo, mas muitas vezes não se tem alternativa. Diversão pode e muitas vezes é parte do processo, mas é necessário estudar, é necessário respirar fundo e avançar no processo.
Isso absolutamente não quer dizer que nossa educação deva ser autoritária ou opressiva, isso não quer dizer que precisemos colocar alunes em salas de aula lotadas em um modelo tecnicista ou tradicional de educação sem levar em conta seus contextos, isso não quer dizer que a educação tenha de ser hierárquica.
Aqui entramos então no que fazer, como construir nossa nova educação. Primeiro, nos livramos do corpo antigo, desmantelamos suas forças, as linhas que lhe dão movimento. SABOTAGEM EDUCACIONAL é necessária, não mascarem mais seus números, mostrem, escancarem a realidade da educação, exijam formas diferentes, e sabotem as linhas de fantoche que mantêm o corpo se movendo.
Desmantelem as estruturas burocráticas, mantendo toda a escola enrijecida e se movendo nesse sistema. Não é impossível e devemos construir essas alternativas aqui e agora, ou arriscaremos futuros muito piores. A educação é uma das bases da construção do socialismo.
EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA, devemos desmantelar completamente, destruir, desmontar todos os sistemas de classe e hierarquias nas escolas de todas as formas que pudermos, seja em sala de aula, simplesmente mudando nossa formação, até mesmo construir novas escolas, não nesse modelo, formar e desmontar as relações neoliberais de pensamento e formação.
DESTRUIR A RELAÇÃO ALGORITMICA, é impossível falar de educação e formação libertária hoje em dia sem conhecer fluxos digitais, seus ecossistemas e suas formas, seus alunes estarão incluses nesse meio, talvez meios ruins, removê-los de meios fascistas, criar alternativas e comunidades verdadeiras e saudáveis é a única forma de verdadeiramente construir essa educação
NÃO EXISTE LUTA SOLITÁRIA, você não está sozinhe, lute com outros professores, construa suas relações, desmantele essa autoridade de sala de aula, forme suas construções libertárias.
NÃO SERÁ FÁCIL. Nada disso é fácil, às vezes tudo parece forte demais, não teremos alternativas simples aqui que podem ser aplicadas em todos os locais, às vezes temos de sobreviver, mas ao construir uma educação libertária se começa com o formato da sala, com como se conversa com es alunes, desmantelando essas relações.
Devemos aceitar que o corpo da educação continua andando e que ele não tem salvação, logo a única alternativa que temos é uma alternativa radical e completa, um completo desmantelamento do sistema de educação, qualquer coisa que mantenha esse corpo se movendo não vai fazer nada, essa educação se provou falha, autoritária, fajuta e pouco efetiva em nossos objetivos, como quaisquer pessoas que se importam com a educação devemos jogar fora seus preceitos.
Notas não dizem nada.
Alunes têm de ter liberdade de estudar o que quiserem
Professores não devem ter poder algum sobre alunes
A escola não deve ser um lugar de coerção, mas de verdadeiro estudo e descoberta
Inclusão não é opcional
A violência da escola precisa ser lidada essencialmente em todos os níveis
Devemos abandonar os preceitos dessa falsa educação.
Isso, para muitos na área, parece insano. Essa educação está tão enraizada em nossa mente que um mundo sem ela parece de alguma forma louco e impossível, sempre tentando manter as questões dessa educação, notas, formas de sala, estruturas, tudo, essas mesmas estruturas que se desmantelaram conforme o tempo passou e falharam em quaisquer desafios à ordem neoliberal.
A educação precisa construir o pensamento científico e precisa formar o pensamento crítico, precisa construir o seu futuro. Mas, ao mesmo tempo, nada disso se provou útil nesta forma de educação. Assim não utilizaremos seu corpo andante.
A educação no Brasil já colapsou, é hora de mudar drasticamente suas realidades.
Deixem o caos reinar.

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