Neste sábado, dia 3 de janeiro de 2026, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, foi de facto sequestrado pelas forças armadas dos Estados Unidos da América depois de uma série de agressões militares americanas contra a Venezuela, algumas das quais mataram civis inocentes.
Antes de mais nada é necessário deixar que o Sr. Maduro não deve receber nenhuma simpatia de nossa parte, o tratamento que o mesmo dava para socialistas e sindicatos por vezes não era diferente do quê o mesmo está sofrendo dos Estados Unidos agora. Da mesma forma, não cabe ao movimento revolucionário carregar a bandeira de um regime que forçou incontáveis inocentes a fugir do país, tal homem não é símbolo da “resistência latina” ou qualquer coisa do tipo.
Quem, no entanto, recebe a nossa simpatia e a nossa preocupação é o povo venezuelano, que após ser confrontado com diversas dificuldades durante anos vai provavelmente passar por um período ainda mais penoso agora devido à nova onda de violência com a invasão americana, a ocupação e a guerra que acaba de começar.
Agora que esclarecemos a seriedade da situação na Venezuela, precisamos esclarecer a seriedade da situação no Brasil. Trump ameaçou diversos países, inclusive o Brasil, até agora, mas quando ele pulou de ameaçar para invadir a Venezuela podemos passar a ter certeza que estamos sob um perigo real. Esta situação só se torna mais séria quando paramos para pensar que a Venezuela é um país que faz fronteira com o Brasil e que, considerando as tropas americanas por lá somadas com as bases militares americanas na Colômbia, uma possível invasão contra o Brasil se tornou muito mais possível.
Não é segredo que Trump e seus servos estão tentando ao máximo possível criar a narrativa do narco-terrorismo na América Latina. Narrativa que inclusive está sendo colocada contra o Brasil e normalizada no Brasil por meio da retórica a respeito dos “faccionados” e de como “precisamos fazer algo a respeito deles” que a direita se esforça tanto para propagar.
Não é difícil imaginar que o “algo” que esta mesma direita gostaria de fazer, a mesma que já tentou múltiplos golpes de Estado nos últimos anos, é apoiar uma invasão americana ao Brasil. Intenção esta que ela mesma não faz o menor esforço de esconder.
O Sr. Flávio Bolsonaro sugeriu publicamente que certas regiões do Rio de Janeiro fossem atacadas durante uma possível “intervenção militar” externa. Flávio é um dos responsáveis por disseminar a narrativa da necessidade de uma intervenção militar contra as facções criminosas no Brasil, mas nem de longe é a única figura da direita participando deste esforço, com destaque para Fernando Holiday, que caracterizou múltiplas vezes o Brasil como uma ditadura para tentar justificar uma intervenção estrangeira.
O partido Missão, (MBL), também propaga ávidamente a mesma narrativa. Curiosamente, o Missão é abertamente influenciado por um ideólogo do regime americano trumpista, Curtis Yarvin, o qual o Missão já fez questão de trazer para o Brasil na convenção nacional do partido e entrevistar.
Yarvin é uma das maiores, se não a maior voz, do movimento neo-reacionário (NRx), um movimento de extrema-direita que reúne diversas das maiores figuras deste meio na atualidade, incluindo o vice-presidente americano J.D Vance e o empresário da indústria militar Peter Thiel, sujeito do qual Curtis é amigo e conhece pessoalmente.
Peter Thiel é um dos fundadores da Palantir Technologies, uma multinacional bilionária que é oficialmente uma empresa de software, que trabalha em áreas como IA, obtenção de dados e outras, tendo como principal cliente o governo americano e suas forças armadas.
A Palantir é por vários motivos o esteriótipo de corporação maligna tão presente na ficção científica, a princípio por ter baseado (por admissão do Sr. Thiel) seu nome em Palantir, a bola de cristal que o vilão Sauron usa para vigiar seus inimigos no romance O Senhor dos Anéis, livro o qual Peter Thiel é assumidamente um fã.
A ligação da Palantir com a hipervigilância não está só no nome, no entanto, a corporação é inimiga consagrada do ativismo pelo direito à privacidade por prover ao governo americano diversas ferramentas para fazer data mining em sua própria população, assim como compilar e armazenar dados do povo sem permissão e compartilhar com o Estado americano.
O Estado Americano tem, inclusive, cobrado cada vez mais que a Palantir compile e liste dados da população americana, inclusive trabalhando para monitorar imigrantes com o fim de acelerar o processo de deportação forçada que está em curso nos Estados Unidos. Processo este em que diversos crimes e violações foram noticiados neste mesmo jornal.
Mas além de roubo de dados, a Palantir também é responsável por vender armas para o governo fascista nos EUA. Além de seu envolvimento prévio com drones, os quais são conhecidos por matar inocentes, assunto cujo porta-voz da empresa (Alex Karp) sempre tenta desviar ou responder de forma macabra em entrevistas, a Palantir publica orgulhosamente em seu site que está sendo responsável por prover ao governo americano caminhões pilotados por IA e com capacidade de lançar foguetes.
Por que é tão importante discutir a Palantir quando o assunto é a quinta-coluna dentro do Brasil? Além da ligação da mesma com adireita que está construindo a narrativa para a invasão, a Palantir tem a Globo como maior cliente fora dos EUA.
A Rede Globo, a voz do imperialismo neoliberal no Brasil, ao usar a Palantir para obter dados de brasileiros para seus próprios fins, está permitindo por extensão que as agência de inteligência do governo façam o mesmo por meio da FISC (Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira).
A Palantir, no entanto, não é a única empresa americana roubando dados de brasileiros e transmitindo os mesmos para o regime de Trump, as big techs em geral compartilham deste pecado, e graças à Lei Felca (Lei nº 15.211/2025), lei que representa um grande pânico moral e retrocesso da privacidade no Brasil, tais big techs receberão do governo a obrigação de cobrar mais dados e monitorar ainda mais o povo, obtendo dados que no mundo mágico da teoria elas não poderiam compartilhar com um governo estrangeiro, mas que na prática sabemos que farão.
A quinta-coluna dos EUA pode não ser a única no Brasil, pretendo inclusive escrever no futuro sobre a subversão russa também, mas no momento é a de maior importância devido à urgência que a invasão da Venezuela traz para o assunto.
É necessário perguntar: por que tudo isso é permitido? Por qual razão o governo brasileiro tolera isso e não ordena no mínimo que o Missão feche e que a Palantir encerre suas atividades no Brasil? Por que não acaba com a Lei Felca e mostra que tem o menor compromisso com a soberania nacional e a proteção do povo?
Nós anarquistas sabemos muito bem o motivo: onde há governo há incompetência, traição de classe e idiotice institucionalizada.
Nos resta, no entanto, começar a cobrança e o movimento para que se faça tudo que é possível a respeito já que são os nossos lares e nossas vidas em jogo, não podemos ir na direção do abate como se fossemos gado!

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