Quem somos?
Não somos conformadys com um sistema que nos aniquila. Não somos assimiladys e nem temos interesse em nos assimilar à norma. Nos recusamos a acreditar no “orgulho”. Nos recusamos a acreditar num orgulho que convive pacificamente num sistema que se sustenta através da morte da diferença.
Quem somos nós se não pessoas em um mundo que quer normatizar tudo? Somos animalizadys, monstrificadys, criadys em uma realidade cada vez mais hostil à nossa existência.
Somos transviadys cuirs e cada vez mais forçadys a nos assimilar a um sistema hostil. É inegável o cinismo das pessoas que causam nossa marginalização e que fazem, no Mês do Orgulho, grandes discursos e demonstrações de um suposto apoio, enquanto direta ou indiretamente contribuem para nossa destruição.
Entramos em mais um Mês do Orgulho LGBT, e já sabemos o que esperar: corporações desprezíveis colocando logos com as cores do arco-íris em suas redes sociais e usando nossas vidas e corpos para vender produtos e limpar suas imagens imundas, partidos, lideranças e polítiques se promovendo em cima de nossas lutas.
Veremos discussões sobre “inclusão”, “respeito” e “representatividade” e notícias com temática LGBT publicadas pelos mesmos portais que repercutem e promovem as narrativas dos grupos que querem nos eliminar. Veremos a palavra “representatividade” sendo repetida em discursos, panfletos e redes sociais, como se a representação e a visibilidade fossem nossa salvação.
Além disso, teremos ainda mais oportunismo eleitoreiro por estarmos em ano de eleições. A 30ª parada do Orgulho LGBT de São Paulo – a maior do mundo atualmente – terá como tema “a rua convoca, a urna confirma”. Que mesmo assimilando-se perdeu 60% dos patrocinadores, mostrando o quanto isso funciona, restando, entre os principais patrocinadores Amstel e Phillip Morris: cerveja e cigarro para LGBTs!
É mais uma manobra para arrebanhar LGBTs para as urnas e eleger candidatys que seguirão reproduzindo a mesma política responsável pela violência que incide sobre corpos dissidentes de gênero e sexualidade, sobre corpos marginalizados, racializados e PCD.
Como diria a anarquista e uma das pioneiras na luta em favor das pessoas kuirs e contra a heteronormatividade, Emma Goldman: “se votar mudasse alguma coisa, o voto seria proibido”.
Segundo nos ensina Audre Lorde, sabemos que não se pode destruir a casa-grande com as ferramentas do senhor. Mas, diariamente, vemos esse ensinamento ser ignorado pelos movimentos LGBTs.
É possível combater a transfobia, o racismo, a exploração e o patriarcado usando as ferramentas que produzem essas violências? Usando as instituições do patriarcado: governos, polícias e prisões? De forma alguma.
A cooptação e pacificação dos movimentos e lutas têm acabado com sua combatividade e potencial subversivo e fortalecido as mesmas instituições e relações que nos violentam ao invés de nos fortalecer. Um exemplo claro disso é a aposta de movimentos LGBTs na criminalização de condutas como forma de combater violências, como vimos com a criminalização da homo/lesbo/transfobia.
Outro exemplo é o modo como o feminismo hegemônico, que é um feminismo de Estado, segue esse caminho, ao apostar na criminalização da misoginia e de movimentos masculinistas para combater a crescente violência patriarcal. Ao mesmo tempo, pouco tem se falado de propostas para se fortalecer e apoiar dissidências de gênero. Nós defendemos que essa violência deve ser enfrentada sem que dependamos do poder do Estado. Quanta energia está sendo usada para construir redes para fortalecer a autonomia das mulheres em abortarem e revidarem contra seus agressores?
Essa postura punitivista dependente do Estado e sua justiça assassina, racista e colonial como mediador de conflitos sociais, alimenta a ilusão de que devemos recorrer a ele para nos proteger dessas violências ao invés de nos organizarmos diretamente para combatê-las. Isso é domesticação.
As instituições do Estado que alegam nos proteger, são as mesmas que nos matam. Basta olhar para o que está acontecendo nos territórios roubados dos Estados Unidos: uma leve mudança nos ventos políticos é o suficiente para que se modifiquem as leis e inicie-se uma perseguição a pessoas transviades, criminalizando suas existências. E essa perseguição estatal já começa a acontecer por aqui, basta olhar para a nova lei de Natal, no Rio Grande do Norte, que proíbe a participação de menores de 12 anos em eventos LGBTQIA+.
Em um momento de ofensiva global de movimentos conservadores, reacionários e da extrema-direita que têm, entre seus alvos, mulheres e pessoas kuirs, essa domesticação deixa essas pessoas desarmadas e despreparadas para enfrentar essas ofensivas enquanto armamos o Estado para nos atacar a qualquer momento.
Ninguém vai nos defender se nós mesmys não revidarmos.
Em junho convocamos coletivos, associações, grupos de afinidade e individualidades libertárias a realizar suas próprias ações contra a política da representação, a política partidária, estatal e capitalista e a extrema-direita. Não somos mercadorias, não somos negociáveis, não somos moeda de troca, não votamos e nos recusamos a ser governadys.
Em São Paulo, neste dia 07 de junho nos juntamos na estação Brigadeiro às 13h.
Assinam este Manifesto:
Acervo Digital Trans-Anarquista, Revolta Anarkokuir, CATs, Fúria Queer, Coletivo Antiordem, Antimídia.


Deixe um comentário