Nova Plebe

Quem foi Benjamin Tucker?

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Benjamin Ricketson Tucker foi certamente um homem de polêmicas. Como devemos lembrar deste autor do anarquismo?

Primeiro, um pouco de contexto. O excelentíssimo Sr. Tucker foi um anarquista (mutualista, individualista) nascido nos Estados Unidos e que viveu entre 1854 e 1939.

Benjamin teve como a obra de sua vida o jornal Liberty, ao ponto que é difícil e quase impossível falar das contribuições dele para o anarquismo sem falar sobre o Liberty propriamente dito, já que este era o principal veículo de atividade política de Tucker por mais de três décadas, tanto pelos ensaios e notícias que comentava por lá quanto pelo que Tucker fazia com a visibilidade de suas páginas. Ele se ocupava com o jornal ao nível de ter se declarado “ocupado demais para escrever um livro” devido à sua atuação no jornal e acabou “montando” seu livro com ensaios escritos para o Liberty ao longo dos anos.

Tucker usava o Liberty, antes de mais nada, para atuar como um verdadeiro campeão da liberdade. Esta preocupação era tão grande para ele que o subtítulo do jornal era “não a filha, mas a mãe da ordem” e a frase era colocada em todas as edições da publicação. Tucker pregava por esta causa inicialmente com uma versão socialista da teoria da lei natural, porém mais tarde, no final de sua vida, por meio do egoísmo stirneriano. Tucker chegou a traduzir O Único e Sua Propriedade para o inglês.

Tucker, no entanto, estava bem longe de ter contribuído para o anarquismo somente na área da filosofia. Ele foi responsável por sintetizar de forma nada menos que brilhante alguns ensinamentos de Proudhon em sua teoria dos monopólios, que eu afirmo que a mesma já existia em O Sistema de Contradições Econômicas, mas concordo em creditar Tucker por elaborar na mesma e tornado-a acessível de forma similar como Bakunin fez com a teoria da revolução em Proudhon.

Esta teoria dos monopólios, que é de grande utilidade e deveria ser conhecida por tode anarquista, afirma que existe um grupo principal de monopólios que conduzem ao capitalismo e dos quais o capitalismo necessita para existir por possibilitarem materialmente um enorme controle da sociedade por parte da classe capitalista e por constituírem os meios para formação de monopólios posteriores. Tucker identificou inicialmente os chamados “três grandes”, no caso, os sobre o dinheiro, terra e tarifas. Mais tarde, ele expandiu a fórmula para sua forma mais conhecida hoje, a dos “quatro grandes”, que passou a incluir as patentes também.

De forma similar, Tucker sintetizou melhor também a ética proudhonista e o conceito de usura já contido na obra de Proudhon desde O Que é Propriedade? (Usura aqui definida como a relação social onde se paga algo em troca de nada, como no caso dos lucros, juros e aluguéis) e a partir não de uma perspectiva moralista, mas utilitária, e sintetiza mais uma vez um breve porém potente sistema ético veementemente socialista que acaba com a exploração do trabalho ao mesmo tempo em que deixa em espaço confortável para os direitos e autodeterminação do indivíduo. Como o próprio Tucker explica em A Filosofia do Certo e do Errado:

Agora, assumindo que o vago padrão de certo e errado adotado por essas pessoas é uma espécie de utilitário, baseado neste caso na teoria de que emprestar com usura em todos os casos causa mais mal do que bem (ou seja, mais prejuízo do que benefício), eles estão em terreno insustentável e estão sujeitos a cair em uma armadilha a qualquer momento; pois não seria difícil produzir casos individuais onde a prática de emprestar com usura, longe de ser uma lesão a alguém, seria um benefício prático, não apenas para os indivíduos que contratam, mas para a comunidade em geral. Pelos seus próprios padrões, então, emprestar com usura, em tal caso, não seria errado. Mas, se for respondido que, embora emprestar com usura possa frequentemente provar ser um benefício mútuo para os indivíduos, seus resultados finais sobre a sociedade em geral são desastrosos, e que, portanto, a sociedade em geral deve impedir os indivíduos de fazer o que eles podem concordar mutuamente, então a Liberdade deve, é claro, exigir uma parada incondicional! Pois essa é a própria essência do despotismo contra o qual protestamos, — a saber, o direito da sociedade em geral de interditar indivíduos pela força.

[…]

Certo e errado são princípios que devem ser sempre definidos, qualificados e circunscritos pelo indivíduo, em sua capacidade associativa: definidos, por uma análise correta do domínio natural da ação individual; qualificados, pela ação reflexa natural de outros indivíduos; circunscritos, pela lei inflexível de que toda ação, individual e associativa, será às custas exclusivas da parte ou partes que agem.

[…]

Sob esta lei, todos os indivíduos têm o direito de fazer tudo e qualquer coisa que elus possam escolher voluntariamente fazer às suas próprias custas. Torne esta lei universal e mantenha as mãos da Igreja, do Estado e de todos os outros déspotas arbitrários e coercitivos longe dela, e a Liberdade perfeita resultará tão naturalmente quanto todas as outras coisas encontram seu nível na natureza.

[…]

O mesmo é verdade para todas as outras prerrogativas que se vinculam à propriedade. Seja a propriedade da terra, em si mesma, certa ou errada, é, na prática, apenas um erro, porque o Estado é projetado principalmente para garantir que a propriedade da terra seja investida em uma minoria em vez de todos. Se o Estado pudesse declarar que de amanhã em diante a propriedade da terra deveria ser estendida a todes, e que todos os proprietários de terras devem, no futuro, garantir suas propriedades por seus próprios méritos em vez de pela força, a propriedade da terra deixaria de ser um mal. Mas o Estado que pudesse ser feito para declarar tal coisa deixaria de ser o Estado.
Pedimos il leitore que examine cuidadosamente a lei que colocamos em itálico acima e, então, tenha em mente os seguintes fatos melancólicos que resultam de ignorá-la ou de não conhecê-la:

1- A usura é uma prática errada porque o Estado cria e defende um monopólio na prática dela.

2- A propriedade da terra é uma prática errada porque o Estado foi criado para defender uma única minoria que se aproveita dela.

3- Aluguel e juros (formas de usura) são práticas erradas porquê o Estado necessariamente confina a tomada de aluguel e juros às classes dotadas de monopólio.

Finalmente, toda a gama de transações entre indivíduos resulta em erros porque o Estado assume o direito de se posicionar despoticamente entre os indivíduos e seus próprios interesses mútuos. O Estado é a principal maldição da humanidade, a mãe dos erros humanos.

Este é então o motivo pelo qual Benjamin Tucker era verdadeiramente uma mente brilhante. Ele resumiu alguns dos principais ensinamentos de Proudhon e outros anarquistas em um grupo de máximas bastante razoável, do qual é muito fácil se concordar ao mesmo tempo que difícil se argumentar de forma contrária com qualquer substância.

Afirmo aqui, então, que se a Ciência Social anarquista foi e é desenvolvida por todo o seu movimento, porém começou com um sonho por parte de Proudhon para ser uma espécie de meta ciência que poderia ser usada para propor e provar princípios para a sociedade, foi Tucker quem condensou os ensinamentos do anarquista original e de fato transformou este princípio numa realidade. Este princípio era o esclarecimento de uma sólida proposta de ética para a sociedade, tão impressionante em simplicidade, mas também em solidez: nas questões que afetam somente a um indivíduo, ninguém tem mais qualquer dizer a respeito, mas aquilo que afeta a sociedade ou gera uma contradição na sociedade, é assunto para escolha coletiva.

E temos aqui um princípio utilitário que pode ser usado para ordenar a sociedade e resolver o conflito, não baseado em nenhum moralismo, inclusive não baseado em dualismos reducionistas de opressor vs oprimido, mas mesmo assim contrário a toda exploração do trabalho e a toda opressão social.

Foi Tucker quem provou definitivamente a demanda da nossa revolução: “não mais autoridade!”. Ele, no entanto, baseou sua tese no socialmente útil, e contra isso ninguém pode fazer sofismas a respeito de fins e meios.

Este mesmo princípio pode ser visto em prática em seu excelente artigo “Por que os Salários Deveriam Engolir os Lucros”, que talvez seja a mais breve e convincente argumentação que alguém já escreveu contra a exploração da conhecida mais-valia.

Tucker se provou então um habilidoso defensor do socialismo, o Grande Movimento Anti-Roubo, como Benjamin costumava chamá-lo para manifestar sua devoção por ele.

Ainda nesta defesa do socialismo por parte de Tucker, posso dizer que teve um profundo impacto em mim. Posso dizer que foi Stirner quem trouxe meus olhos para a esquerda e Magón foi meu primeiro verdadeiro mentor político, Tucker foi quem inscreveu o socialismo no meu coração. O sistema criado por ele é o que vai me fazer ser socialista para sempre e perceber que o socialismo é uma das coisas do tipo mais precioso, só o nome parece cheio de vivacidade quando se pronuncia. Socialismo. Socialismo!

Tudo que foi citado até agora é o necessário para que eu me considere um tuckerista, de forma que nenhuma colocação a mais é necessária. Há, no entanto, muito mais o que dizer.

Mas, novamente, Tucker não levantava a bandeira do socialismo só com suas ideias. Entre outras ações, Tucker era um ávido sindicalista e mantinha em seu jornal uma área fixa para o movimento sindical ainda nascente nos Estados Unidos, além, é claro, de alguns artigos extras conforme a situação pedia.

Benjamin tinha suas disputas ideológicas com os anarquistas de Chicago, mas tomou o lado deles após o Massacre de Haymarket, chegando a denunciar Henry George como traidor por não fazer o mesmo. Além disso, Tucker também costumava usar seu jornal para fornecer publicidade para os sindicatos genuinamente comprometidos com a luta trabalhista e elogiar as melhores iniciativas dos camaradas. Tucker também explicitamente apoiou os sindicatos como método revolucionário.

Como deveria ficar claro para qualquer trabalhador sem preconceitos que a própria legislatura é a conspiração verdadeiramente perigosa e ilegal! É ao substituir essa conspiração política por um socialismo inteligente e autogestionário que os sindicatos revelam sua principal importância. Sob essa ótica, estamos dispostos a atenuar, por ora, nossas críticas ao fato de que os próprios sindicatos são, em grande medida, permeados por elementos de força e autoridade. Talvez não se pudesse esperar outra coisa, se considerarmos que as organizações trabalhistas recém-nascidas são plantas que brotam da velha ordem política. Contudo, por mais imperfeitas que sejam, elas representam o início de uma revolta contra a autoridade do Estado político. Elas prometem a futura substituição do domínio de uma turba legislativa usurpadora pelo socialismo industrial. Embora saudemos o crescimento das associações de trabalhadores como um sinal poderoso de emancipação, convidamos os trabalhadores a estudar os métodos da Liberdade, a descartar o Estado, a repudiar todos os políticos e seus serviços e a seguir em frente com suas próprias atividades. Mais uma ou duas lições como os tumultos de Pittsburgh — se bem aproveitadas — farão com que os integrantes dessa turba legislativa comecem a refletir seriamente.

— Benjamin Tucker, Trade-Unionism (tradução automática).

Agora, esclarecendo uma questão, há o equívoco muito comum de que Tucker seria um gradualista. Ele certamente era muito crítico ao entendimento e metodologia dominante de revolução nos Estados Unidos durante sua época de vida (a Propaganda Pelo Ato), tão crítico na verdade que esteve durante a maioria de sua carreira em atrito com boa parte do resto do movimento anarquista e devido a esta mesma discordância ele certamente enfatizava (um pouco demais) o que chamaríamos hoje de disputa da consciência ou do campo das ideias, talvez com uma linguagem que não o ajudava em vários momentos, mas o trecho anterior não deixa dúvida de que ele apoiava o que via como uma estratégia mais realista para a revolução.

Hora essa, a disputa de Tucker em seu tempo é tão necessária quanto a que temos hoje com os ultra-revolucionários, tanto com aqueles supostos anarquistas que repetem acriticamente o dogma de “guerrilha descentralizada” sem nenhum plano funcional a respeito disso e com os tipos marxistas que vivem falando sobre revolução armada e fuzil sem terem um fuzil e nem ideia de onde arranjar um desses.

Em contrapartida, a clara advocacia de Tucker pela Greve Geral antes mesmo que a mesma tivesse se consagrado enquanto método efetivo para a criação de condições objetivas para a revolução devido ao seu papel em diversas revoluções e revoltas no século XX, é uma evidência igualmente clara de seu pragmatismo e da exatidão de sua análise.

Falando em disputas, vamos passar a tocar nos erros de Tucker. O maior dele foi o de, por resquícios de purismo ideológico em seu pensamento, não ter integrado mais a fundo as teorias de Bakunin e Kropotkin.

Tal erro certamente limitou severamente o escopo de pensamento do Sr. Tucker e o levou a um atraso em sua concepção da Ciência Social anarquista iniciada por Proudhon, visto que este purismo o levou a não integrar completamente as descobertas de outros contribuidores tão importantes para esta ciência quanto ele próprio.

Para além disso, mas ainda no mesmo tópico, Benjamin certamente falhou enormemente também com seus leitores da época que, o enxergando enquanto a voz do trabalho, acabaram por vezes a se privar de aportes teóricos e formas de práxis importantíssimas contidas nas obras de Bakunin e Kropotkin.

Tocando em um defeito que agora sai do território de Tucker enquanto teórico e entra em Tucker enquanto pessoa, o mesmo possuía uma posição contraditória a respeito do feminismo.

Benjamin, ao mesmo tempo que apoiava a maioria das pautas do movimento feminista de sua época e era visto como um aliado ao ponto de ser convidado para escrever em jornais e publicações da época sobre o assunto, ao ponto de ter mantido uma coluna em um deles por muito tempo (o The New Freewoman), acreditava no mito misógino a respeito da inferioridade física da mulher de forma a se opor especificamente ao pagamento igualitário devido a isso.

Este erro de Tucker, mesmo sendo em parte um produto de seu tempo, é sem dúvidas especialmente grosseiro e repreensível. Esta mesma falha está em clara e evidente contradição com a Ciência Social que o próprio Benjamin propagandeou com tanto ânimo durante sua vida. Resta a nós, no entanto, usar suas contribuições positivas para alcançar este objetivo de grande importância ao qual Tucker infelizmente não foi capaz de notar em seu tempo.

Outra contradição é a posição de Tucker a respeito do racismo. Ele infelizmente se deixou enganar por vários mitos e estereótipos racistas de seu tempo, ao mesmo tempo que foi também um defensor da abolição da escravatura, usava o Liberty para dar voz a trabalhadores racializados e foi por algum tempo talvez a maior e mais veemente voz contrária ao crescente racismo contra trabalhadores chineses do movimento sindical de seu tempo.

Tocando agora em outro aspecto da vida pessoal de Benjamin Tucker, o mesmo era ateu e ateu convicto. Tão convicto, na verdade, que alega-se que em seu leito de morte o mesmo fez questão de chamar testemunhas para afirmar “eu não creio!”.

A (não) crença veemente do Sr. Tucker, no entanto, nunca foi obstáculo para ele afirmar a necessidade da cooperação e tolerância mútua entre anarquistas com diferentes opiniões neste quesito. Tucker era seguidor de Lysander Spooner, um anarquista deísta, e escreveu juntamente com ele. Afirmou seu princípio sintetizado da Ciência Social de que a fé (ou não fé) é ultimamente uma questão e um direito pessoal, enquanto a religião não tem lugar enquanto força para moldar os assuntos públicos e ela não deve ter este poder.

Outro aspecto em que Tucker se fez importante foi em seu combate às tentativas fascistas de cooptar o movimento anarquista. Tucker pode não ter sido o único, diversas outras figuras como Emma Goldman, Rudolf Rocker, Neno Vasco colocaram Sorel corretamente em seu lugar enquanto um intelectual sem ligações sérias com o movimento sindical que era romantizado por pessoas alheias a ele por ser um pensador tido como “obscuro”, mas foi Tucker quem escreveu o melhor e mais informativo artigo da época contra o chamado Cercle Proudhon e os sorelianos franceses da época, chamado “Proudhon and Royalism”.

Com tudo isso em mente, precisamos responder então quem foi Benjamin Ricketson Tucker. Ele foi um homem de contradições, que em alguns momentos fez menos que o necessário e em outros mais que o ideal, que foi por um lado um produto de seu tempo e por outro um gênio com um destino que será contado através das eras. É deste último Tucker que lembramos com tanta admiração.


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